Testemunhos


Estes testemunhos são de homens sobreviventes que hoje estão em controlo da sua vida. Passaram por momentos de dúvida, incerteza e de confusão extrema. No entanto, tiveram apoio e ultrapassaram os vários obstáculos consequentes de uma experiência traumática de violência sexual.

Esperamos que um dia também possa partilhar o seu testemunho.

 

Ricardo – 31 anos

Os dias são tão diferentes conforme quem os encara… Há dias tão claros, tão serenos, tão luminosos, em que o vento, numa brisa suave, beija nossos rostos, sem autorização, e segue viagem… Nestes mesmos dias, de tanta luz, há quem viva na escuridão, num refúgio de alma, numa caverna construída por si mesmo, dentro de muralhas esculpidas pelo medo e há quem simplesmente não viva… Quando guardamos um segredo, uma marca tão profunda que se funde ao nosso ADN, quase esquecemos de ser quem somos, não é por mal que o fazemos, simplesmente criamos mecanismos de defesa que nos levam a esquecer a nossa identidade… Antes de encarar esta batalha, de um contra um, de mim contra mim mesmo, vivia no medo, constantemente a responsabilizar a criança que fui, a criança que vive magoada no meu passado por aquilo que aconteceu… Mas sejamos francos, como é que uma criança pode ser responsabilizada por uma violação, como é possível deixarmo-nos corroer por uma culpa que não nos pertence? Todas estas perguntas retóricas, que viveram e ainda vivem na minha cabeça, aos poucos foram correndo a minha existência, como se eu não tivesse direito de ser feliz, como se a felicidade fosse algo que não me estivesse destinado… Durante anos anulei-me, magoei-me e magoei outros, pessoas que amei e que deixei que seguissem viagem, por não me sentir capaz de fazê-las ficar na minha vida… Mas como nem todos os dias são iguais, num dia de tempestade senti que me afogava, perdi as forças para segurar o meu barco, onde o refúgio era o oceano bem distante de todos, onde o meu segredo permanecia naufragado nas profundezas de mim mesmo… A tempestade foi tão forte que todo o meu ser estremeceu, vi na loucura uma miragem e no desejo de salvação a cura… A vida sorriu para mim e de forma inconsciente soube que precisava de ajuda e que essa ajuda poderia fazer toda a diferença… Num processo longo, demorado, de feridas abertas, de exploração de memórias, pensamentos, recordações, visões, sensações de repulsa e de autocomiseração, vi-me obrigado a lutar comigo mesmo, contra os meus pensamentos viciantes, as ideias erradas que alimentei ao longo dos anos e contra tudo aquilo que acreditei ser a realidade, numa confusão de mente de quem tenta se proteger de si mesmo. Neste processo, de construção, de sanação, de reaprendizagem, deixei que me guiassem, deixei que a luz entrasse na minha vida e fui capaz, pela primeira vez, de questionar de forma racional tudo aquilo que me aconteceu. Estas questões, estas reflexões, ajudaram-me a iniciar um processo de desconstrução de todas as barreiras e demais defesas por mim criadas… Não é fácil, não é algo que seja feito de um dia para outro, são batalhas diárias num processo de recuperação e de amor-próprio… Contudo, há que acreditar que estes sentimentos nefastos são efémeros e, como tal, dependem de nós para desaparecer, dependem da nossa compreensão dos fenómenos que o desencadearam e da forma como passamos a lidar com essa informação. A ajuda psicológica foi muito importante, foi nessa ajuda que adquiri as armas necessárias para desconstruir barreiras, foi com essa ajuda que aprendi a desenvolver estratégias para conseguir seguir e frente sem me deixar dominar pelos medos do passado… Mas desengane-se quem achar que existe uma receita para o sucesso, existe sim a nossa vontade de mudança, de resiliência, de vencer… Embora esteja visivelmente melhor, após as várias sessões de terapia, não considero a guerra ganha, considero sim que estou destinado a ser colocado à prova todos os dias, em pequenas batalhas diárias, contudo sei que estou e assim me sinto, bem preparado para fazer frente ao que possa surgir no futuro… 

José – 56 anos

Antes de conhecer a associação Quebrar o Silêncio  estava num estado de desespero e de ansiedade descontrolados, com pesadelos e sem desejo de continuar a viver.

Após ser acolhido pela equipa, percebi que não tinha sido abusado uma vez, como eu relatei nas primeiras consultas. No meu caso fui violado aos 10 anos, pelo coordenador do meu ciclo na escola, que era um padre do Colégio Salesiano.

O abuso tornou-me uma criança introvertida e consequentemente alvo de abuso de amigos mais velhos e até de um dos meus irmãos. Eu era tocado nas partes íntimas e não reagia com medo das ameaças. 

Cresci com muitas inseguranças, mas consegui tirar o bacharelado em Administração de Empresas, dedicando 100% da minha vida ao trabalho. O excesso decorrente deste estilo de vida foi responsável por um esgotamento nervoso quando tinha 38 anos, altura em que fui pela primeira vez a uma psicóloga.

Abordei a ansiedade que sentia, mas o assunto do abuso ficava sempre em segundo plano. Depois perdi o emprego, comecei a beber muito, deixei de ter interesse pela vida. Só uma coisa me fazia esquecer os problemas: a arte do desenho e pintura. 

Quando comecei as sessões de apoio com a Dra. Filipa na associação Quebrar o Silêncio, consegui desenvolver a minha assertividade e dizer “NÃO” ao que me incomodava, seja na família, com amigos ou em ambientes públicos.

Comecei a sentir mais confiança e acreditar que tenho aptidões para outras atividades, onde me sentia incapaz. Com o passar do tempo, já sendo atendido pela Dra. Cláudia, os pesadelos foram diminuindo e minha autoestima melhorou muito. 

Participar do grupo de ajuda mútua dirigido pelo Ângelo foi um reforço na minha capacidade de sobreviver. Ser assertivo e autêntico 

Agradeço aos que me acolheram e recomendo imensamente que venham conversar com alguém preparado para o acolhimento e apoio que merecemos. Tenho muito para viver depois de quebrar o silêncio do abuso no passado. E é lá que vou deixá-lo. No futuro só  tenho espaço para felicidade.

N. – 29 anos

É quase impossível ser breve neste testemunho, inclusive por se tratar de um dos momentos de maior acolhimento que alguma vez experimentei. A minha inquietação sobre o abuso foi parte de mim e acompanhou-me durante muitos anos. Este lugar mal assombrado da minha memória acusava-me, deprimia-me e fazia-me questionar o próprio episódio. Culpei-me por muitas vezes até entender a gravidade e a profundidade da violência sexual que fui vítima.

Encontrei na Quebrar o Silêncio o apoio que não obtive por parte da minha família. Através do brilhante e extremamente profissional acompanhamento da Dra Filipa, pude identificar em mim, caminhos que me fizeram despedir das sensações que me levavam de volta a um cenário que me amedrontava.

Houve sempre liberdade e compreensão durante as sessões, senti-me confortável e extremamente seguro durante todos os meses do acompanhamento, podendo partilhar sobre o tema sem qualquer tabu.
Após terminar o apoio sinto-me mais consciente, fortalecido e não mais em perigo. Agradeço imensamente à associação pelo apoio e por me ter oferecido ferramentas fundamentais para o meu processo de cura emocional.

D. – 35 anos

Tive uma infância inocente maculada por uma maldade que não era minha. Tive uma adolescência confusa, tentando superar todas as expectativas para “compensar” de alguma forma a culpa que eu carregava como um peso diário, que me fazia curvar perante qualquer fracasso. Tornei-me num adulto que precisava controlar todas as situações para compensar o que eu não pude controlar.

Sim, eu não pude controlar os abusos que sofri e seus efeitos ao longo do meu desenvolvimento. E, após 30 anos, meus mecanismos de defesa não me defendiam mais. A vergonha, a culpa, o medo, os enjoos, as dúvidas… estavam a matar-me, prejudicando os meus relacionamentos mais preciosos. Foi quando falei pela primeira vez a um amigo de confiança que teve empatia. Mas, eu precisava de algo além. Então, encontrei a associação Quebrar o Silêncio pela internet e li todo o conteúdo do site numa noite, atónito a identificação imediata de sentimentos nos testemunhos lidos. Sem hesitar, enviei um pequeno desabafo em forma de e-mail. E, que bom que eu fiz isso.

Desde a resposta do Ângelo até a primeira consulta com a Dra. Filipa, senti-me amparado, acolhido, compreendido. Aos poucos minhas defesas foram rompidas e as inseguranças desvanecidas. Encontrei na terapia um espaço semanal de autoconhecimento, um caminho necessário de compreensão, um encontro com a redenção de um menino de seis anos, inteligente, criativo e inocente a quem eu culpei injustamente, a quem eu escondi fortemente, mas que agora está ao meu lado vivo e que me ajuda a ressignificar a minha vida. 

Durante essa jornada inevitavelmente revivi lembranças dolorosas, algumas reprimidas, mas que foram observadas pelo prisma correto e me fizeram entender os porquês de sentimentos, traços e atos autodestrutivos. Aprendi estratégias e encontrei ferramentas que me permitem aprimorar meu comportamento, meu interior e a forma como me relaciono.

Além disso, perceber que não sou o único, e encontrar no grupo rapazes de diferentes partes e formações que compartilham da mesma dor, das mesmas dúvidas… gerou em mim um sentido de pertença e de equidade. Eu não estou sozinho. Eu não sou mau. Eu sou normal.

Por isso, se você sente dúvidas, culpa, vergonha, medo… e tantas outras reações negativas, advindas de abusos na sua infância ou adolescência não hesite em confiar no profissionalismo desta equipa. Será uma jornada rumo à estabilidade ao seu tempo, sem pressão.

Concluo com este simples verso:

“Obrigado a quem confia e confiando abre espaço para amar
Obrigado a quem acolhe e acolhendo abriga quem não pode ser protegido
Obrigado a quem compartilha e compartilhando abre espaço para voar
Obrigado a quem não desiste e persistindo chegou até aqui escondido
Obrigado ao menino que eu fui e ainda sendo me permite vivenciar
Que confiando, acolhendo, compartilhando e persistindo 
Todos os meninos que não foram protegidos ainda podem acreditar
Que não precisam mais se esconder, apenas encontrar suas asas e voar”

V. – 31 anos

“Eu não sei!”

Essa resposta era recorrente em minha vida, em especial quando me deparava com algumas ações que, de forma geral, tinham significados óbvio.

Algumas ações minhas, quando enquadradas em um raciocínio lógico de causa e efeito, não faziam sentido para mim. Um exemplo era um hábito que tinha de olhar compulsivamente para rapazes na rua (geralmente com o mesmo biótipo), ou de seguir vários rapazes desse mesmo biótipo em redes sociais para ficar olhando os corpos essas pessoas.

Se fizermos uma relação de causa e efeito com essas situações o mais obvio é pensar que eu olhava compulsivamente por desejo, atração sexual ou por admiração da beleza.

Quando questionado sobre o porquê dessas ações, eu não tinha resposta, eu dizia: “Eu não sei!”. E, de fato, não sabia explicar porque agia daquela forma. Em 2020, muitas coisas mudaram e essas situações ficaram mais intensas… Quando questionado porque ficava olhando para um rapaz na rua, eu não sabia dizer o que motivava o meu olhar e ao tentar recordar se de facto tinha olhado, não me lembrava de o ter feito.

Com muito esforço, surgiam na minha memória fragmentos de alguém: um braço, uma roupa… era como se minha observação fragmentasse o corpo da pessoa que fiquei obcecadamente olhando.

– Você olhou para o rapaz por que achou ele bonito?

– Eu não sei! Não faz sentido para mim, eu nem me lembro de contemplar a beleza do rapaz, nem sei se ele era bonito de facto…

Quando essas situações aconteciam, eu me sentia muito mal, culpado, sujo… Chegava a chorar por dias, ficava num quadro de profunda depressão. Um certo dia, após passar por uma situação semelhante a mencionada acima e chorar por quase 4 dias, resolvi dizer basta.

Sai do quarto ainda em lágrimas, chamei o meu companheiro e disse: “Eu fui abusado na infância, quando tinha 6 anos”. Contei que não sabia como se davam os abusos, que isso sempre foi apenas um sentimento. Durante a infância, toda vez que via um certo tio, eu sentia que deveria dizer a alguém que ele me abusou sexualmente, mesmo não tendo nenhuma memoria do que ocorreu, era um sentimento.

Partilhei com meu companheiro que o abuso não tinha sido realizado apenas por esse abusador, mas também por outras crianças, que muito cedo minha sexualidade e meu corpo foram expostos. Tinha memórias onde eu estava nu, com outros meninos nus num sótão na casa dos meus avós, meninos mais velhos e mais novos que eu, não me lembrava do que tinha acontecido, apenas tinha essa recordação.

O meu companheiro em todo momento foi acolhedor, e olhava-me com extremo afeto e ternura. Em minha mente não fazia sentido receber aquele acolhimento, porque eu era alguém muito ruim, sujo… Foi nesse momento que resolvi compartilhar o que para mim é o maior factor de culpa. Disse que contaria a ele o que mais me angustiava e que fazia eu me sentir culpado.

No começo da adolescência, pediram que um primo mais novo que eu fosse tomar banho comigo, na ocasião, ele tocou meu corpo e eu deixei que a situação evoluísse. Isso ocorreu algumas vezes. Eu tinha mais maturidade que ele, sabia que aquilo não era correto, mas sentia que deveria permitir, como já havia permitido com outros meninos da minha idade, ou próximos da minha idade, pensava que era algo natural.

Certo dia, estava na casa da minha avó quando esse tio disse: “Qualquer dia desses esses meninos [apontando para mim e para o meu primo], vão dizer que eu tentei fazer coisas com eles”. Não me lembro em que contexto ele proferiu essas palavras, também não me recordo quem estava na casa naquele dia e se o ouviram a dizer isso. Lembro-me apenas de sentir um frio na espinha e entender que meu primo só teve aquela ação porque também foi violentado pelo mesmo abusador.

Eu tinha 13 anos na época e senti-me muito culpado e essa culpa acompanhou-me o resto da minha vida. Desse dia em diante nunca mais tive contactos íntimos com ninguém, tinha medo, receio… Desse dia em diante tudo que acontecia de ruim na minha vida eu associava a esse fato, sentia que era merecedor daquilo porque era uma pessoa ruim e comecei a acolher toda situação que era punitiva, porque no meu imaginário eu não era merecedor de ser feliz.

Lembro que quando contei isso ao meu companheiro eu não esperava ser acolhido, achava que ele iria culpar-me por tudo o que aconteceu, que sentiria nojo e medo de mim, assim como eu sentia e que iriamos romper naquele momento. Para a minha surpresa, ele me acolheu, disse que eu não tinha culpa de nada do que aconteceu, que eu era uma criança. Foi um dia muito especial, de muito amor e acolhimento. Nesse momento ele me disse o quanto as minhas ações que não faziam sentido se encaixavam, que tudo fazia sentido para ele agora.

No dia seguinte encontrei a associação “Quebrar o Silencio” e decidi olhar em profundidade para tudo isso.

Faltam-me palavras de gratidão ao Ângelo e a Filipa, além de serem um ponto de apoio, suporte e reconstrução, vocês se tornaram numa inspiração. Emociona-me ver pessoas como vocês com um propósito de vida tão revolucionário e potente, que de fato reconstrói o que temos como sociedade.

Os processos terapêuticos foram intensos e encorajadores. Por piores que fossem as lembranças que surgiram ao longo do processo, por piores que fossem os sentimentos que tive que encarar, eu sabia que tinha um lugar de segurança, acolhimento e respeito. Foi nesse ambiente que entendi que o meu olhar excessivo para as pessoas tinha associação com a forma que ocorreram os primeiros abusos que sofri. Descobri também o porquê que quando me sentia mal, inferior ou culpado eu tinha a necessidade de consumir pornografia (uma dependência que me acompanhou por muitos anos). Não quero aqui me estender em detalhes dos impactos, mas na potência que encontrei no “Quebrar o Silencio”

Tive impactos profundos em minha vida, retomei paixões antigas, como a escrita e fortaleci novas paixões como o Yoga. Com o apoio psicológico da Filipa fui construindo um reportório próprio de estratégias para lidar com as minhas emoções e sentimentos. Compreendi que o passado existe, que as violências que vivi fazem parte do passado, mas que podem reverberar no meu futuro e que a nova forma com que lido com esse passado que me constitui com um sobrevivente e não como uma vítima. Ter o controlo nas minhas ações, de forma consciente, saber o que me fortalece e me enfraquece foi o maior ganho de todo esse processo. Entendo que não sou uma vítima, que sou alguém que sobreviveu a muitos impactos e que não me resumo a essas sobrevivências, sou muito mais que a sobrevivência, que minha vivência é potente e que ela me traduz.

Hoje, sinto-me renascido, forte e com um caminho gigante pra trilhar. Gratidão a todos que me acompanharam nessa jornada, meu eterno sentimento de respeito admiração!

Rodrigo – 33 anos

Acredito que este testemunho é mais uma barreira ultrapassada e acredito também que quebrar o silêncio é importante para encontrarmos mais estabilidade emocional para seguir com a minha vida, e ter força para trabalhar internamente aquilo que está guardado. Não existe uma fórmula mágica para apagar tudo que vivi e começar novamente do zero, mas, existe apoio e orientação, que nos ajuda a conviver e tratar as lembranças que nos acompanham.

Procurei a associação para compreender alguns contextos vividos e as ligações com os abusos que sofri na infância. Confesso que não foi fácil, primeiro porque o acto de deixar outras pessoas conhecerem as minhas dores internas era algo complicado.

Devido aos abusos a que fui submetido criei uma resistência em não falar sobre isso, e também porque depois de tudo o que me aconteceu, passei a não confiar em ninguém. Esses eram alguns dos factores que sempre me deixaram em modo de defesa e que sempre interferiram em todas as minhas relações até o momento actual, relações afetivas ou não.

Comecei a observar que muita coisa foi afetada na minha vida. Sentia-me deprimido, ansioso, inseguro, desconfiado e triste. Imaginava que havia algo relacionado com tudo o que passei, e mesmo depois de passar por outros psicólogos, eu sabia que havia coisas que eu não tinha abordado na terapia, foi aí que um amigo indicou a associação Quebrar o Silêncio.

Os abusos que aconteceram comigo começaram cedo… A primeira vez aconteceu quando era criança, e quando contei à minha mãe e ela bateu-me… Então eu silenciei… A partir desse episódio, outros abusos foram acontecendo, inclusive quando me tornei adulto.

Silenciar sobre tudo e sobre todos tornou-se comum. Tornei-me um acumulador de sentimentos e traumas, que só me fizeram mal.

Tive os piores sentimentos durante a minha adolescência, pois sentia-me atraído pelo primeiro abusador, que era um tio. Muitas vezes desejei que ele morresse, outras inúmeras vezes eu desejava morrer… Passei toda a minha adolescência isolado, sem amigos, sem colegas, só eu e os meus pensamentos. Tinha medo de ser abusado, muitos dos meus pensamentos eram direcionados a Deus, em que pedia para ele acabar com aquele sofrimento, ou se ele existia, por que razão deixou que aquelas coisas acontecerem. Hoje ao olhar para trás, observo que não tenho histórias sobre quem fui na adolescência, ou do que vivi, é como se existisse um espaço em branco.  

Quando entrei na universidade, conheci um dos diretores do curso, que me atraiu para a sua casa, e onde abusou de mim e me violou. Depois desse acontecimento, eu silenciei mais uma vez, pois já estava habituado a silenciar durante toda a vida, e apesar de tudo, eu sempre me questionei o porquê de aquilo ter acontecido, se eu não o permiti a tocar-me. Esse foi mais um trauma que me atordoou por muito tempo, e como reflexo disso sempre tive ansiedade e medo de ficar sozinho com homens, fossem eles amigos, chefes, professores, familiares ou outros que eu tivesse de estar sozinho no mesmo espaço e que estivesse próximo de mim, mas graças ao apoio da associação eu conseguir chegar a várias memórias que estavam guardadas, e hoje estou a tratá-las.

As sessões foram muito importantes para mim. Eu sempre vivi entre altos e baixos, mas durante as sessões pude obter mais confiança em mim e em algumas pessoas que estão próximas. Foi um período muito importante, senti-me bem recebido, ouvido, apoiado, e mesmo com as dificuldades nas tarefas diárias, ou do trabalho, eu sempre estive presente nas sessões, pois, sentia e entendia que me faziam bem e que a prioridade que eu tinha que ter era justamente comigo próprio.

Procurei em cada sessão trabalhar e expurgar um pouco do que fui emocionalmente acumulando em cerca de 28 anos… E tenho certeza que hoje tenho mais força para continuar a desconstruir tudo o que estava guardado dentro de mim.

Não foi fácil sobreviver a tudo o que passei. Se fosse detalhar aqui cada facto, acredito que não haveria espaço para tantas aflições transformadas em texto, mas o que importa é que tudo passou, e que ficou lá atrás, cabe a mim agora, aos poucos continuar o trabalho interno que comecei com o apoio da Associação.

O que quero deixar como mensagem a outros homens que possam ler este testemunho, é que: é possível seguir, é possível sobreviver a tudo isto, é possível ver que não estamos sozinhos, e que o apoio da associação pode ajudar-te a compreender como tratar as aflições internas, mas para isso é preciso quebrar o silêncio para te ajudares a ti próprio.

Agradeço ao Ângelo e a Dra. Filipa pelo espaço, pelo apoio e por toda ajuda que me proporcionaram durante estes meses, sem pedirem nada em troca. Sei que este foi o passo inicial para eu continuar este trabalho interno que agora só depende de mim.

Gratidão à associação.
Rodrigo

T. – 30 anos

Decidi procurar a associação Quebrar o Silêncio em setembro de 2020, as razões que me levaram a fazê-lo eram porque estava num estado de confusão de stress pós traumático. Sentia que a minha mente era confusa, cheia de dúvidas e não percebia porquê.

Não sabia distinguir abuso de sexo. Apesar de sentir que a minha sexualidade era heterossexual, e nunca o tinha posto em causa, tinha associações relacionadas com o abuso em criança e não percebia o porquê. Houve uma situação no abuso que me fez criar prazer e muitas vezes pensava “mas será que sou bissexual, homossexual e estou a ser preconceituoso?” Por outro lado, nunca fui preconceituoso com pessoas com outras orientações sexuais, e às vezes dizia, mas eu nunca abri a boca para criticar um homossexual como poderei ser preconceituoso? Sentia que às vezes parecia que queria experimentar ter relações homossexuais para ver se era mesmo aquela opção, mas depois caía em mim e pensava “mas isto não sou eu”, é apenas e só confusão. Outras pessoas, não especialistas, diziam-me “mas aceita isso”. E eu pensava, mas aceitar o quê?! Não há nada para aceitar. E isto ainda aumentava mais o meu estado de confusão. Parecia que era eu que tinha tendências e que não estava a assumi-las. Independentemente de tudo o resto eu sentia que aquilo não era eu, era uma coisa que não me pertencia, como água e azeite. Tive e ainda tenho gravado o toque do prazer e é isso que por vezes me fazia confusão, mesmo apesar de sentir que nada tinha a ver comigo. Este é o fundo da questão. Por vezes sentia atração por pessoas, no ginásio ou por clientes e não percebia o porquê, mas não era uma atracção como era com as mulheres, é como se fosse algo que não fosse eu, era outra pessoa. Estranho. Este era o meu estado de confusão psicológica antes de iniciar o processo com a associação.

O meu processo de recuperação foi gradual. À medida que as consultas foram acontecendo fomos desconstruído varias ideias sobre o que é sexo e abuso, o que são as associações que pareciam atracções, mas que depois não eram. Percebi que o prazer que senti em criança com 6/7 anos trata-se de reacções fisiológicas, nada tem haver com o prazer sexual, para ter sido sexo e haver atracção teria que ter sido algo desejado, consentido, como é com uma mulher. E estas ideias foram sendo desconstruídas, e percebi que a minha orientação sexual é, como alias já sabia, heterossexual, simplesmente o que tinha era stress pós traumático pós abuso. Tratava-se de um problema psicológico que precisava de ser tratado. Em mim, só de pensar em tocar num homem com intenções sexuais dava-me nojo.

Hoje sinto-me bem. Tenho ainda a sensação de prazer em mim. No entanto, tenho o conhecimento e as ferramentas para lidar com a situação. Estou autoconfiante na minha sexualidade, feliz por tudo ter acabado bem. E muito do problema que havia em mim era falta de autoconfiança que criava isso.

E estou sobretudo grato à Associação pelo trabalho que fez comigo. Digno de uma Taça da Liga dos Campeões, a Bota de Ouro e a Bola de Ouro entregue às pessoas que me ajudaram neste processo. Nunca vos vou esquecer.

E. – 36 anos

Tenho hoje 36 anos e sofri diversos abusos ao longo da vida, desde a infância – não sei precisar a idade – mas estimo 8 ou 9 anos.

Sei, no entanto, que vieram de todos os lugares. De dentro da minha própria família – próxima e estendida – e também de desconhecidos vários. Hoje vejo que colocar-me em situações abusivas já não era só normalizado, era até mesmo o que algumas pessoas que me cercavam esperavam de mim.

Os ciclos de abuso e de culpa se repetiram por muitos anos – décadas – sendo o episódio mais traumático aquele em que fui sexualmente ludibriado e me expus ao HIV, vírus que acabei contraindo aos 21 anos.

Oferecia o meu corpo a qualquer homem – e meu tempo e meus recursos a qualquer pessoa que me procurasse. A falta de imposição do meu verdadeiro eu e de limites pessoais já me havia sido roubada há muito tempo. Antes de conhecer os serviços da associação e ser auxiliado pela Dra. Filipa, eu pouco tive a oportunidade de exercer minha sexualidade de forma saudável, plena e consensual, pois esta sempre se mediava unicamente em satisfazer os desejos dos outros.

Tudo isso se traduzia no meu dia a dia em culpa, raiva, sensação de vazio, labilidade emocional, auto-agressões, inadequação social, auto sabotagem e transtorno somatoforme – além é claro do sexo compulsivo, compras compulsivas e uso de drogas recreativas, mesmo já tendo feito uma psicanálise não especializada durante cerca de 7 anos – que me salvou do suicídio mas não tocou nestas questões do abuso. Meus sintomas psicológicos eram tão graves que cheguei a ser diagnosticado com o Transtorno de Personalidade Borderline, o que descobri através das sessões não condizer com a realidade, conforme fui ganhando controle sobre mim mesmo.

Com a Dra. Filipa, primeiro aprendi a reconhecer as agressões que sofri, depois reconheci e nomeei meus agressores como criminosos – sem eufemismos, também aprendi a reconhecer e nomear meus sentimentos, falar sobre eles e expô-los ao mundo de forma assertiva.

Hoje sou um sobrevivente. Orgulhoso de mim e plenamente capaz de cuidar de mim mesmo. Defendo-me a mim e aos meus interesses de forma assertiva tanto no trato pessoal como no ambiente profissional. Ainda estou aprendendo a confiar mais nas pessoas, mas já muito mais aberto ao mundo e a fazer novas amizades. Grandes primeiros passos já foram dados, graças a ajuda que aqui encontrei… continuo agora, contente a dar um passo de cada vez!

João – 36 anos

Antes de procurar o apoio sentia-me bloqueado de tantas maneiras que chega a ser difícil de descrever. 

Julgo que inconscientemente tinha normalizado toda a culpa que sentia como se fosse um novo membro do meu corpo.

Tinha momentos de desistência de mim mesmo, chegando a um ponto tal de não querer continuar. Era muito habitual deixar-me consumir por algo que estava completamente fora do meu controlo. 

O processo de recuperação foi muito diferente daquilo que esperava. Como referi estava a normalizar toda uma situação, que de todo não deve ser normalizada. O processo foi construir uma nova consciência em mim, foi agarrar-me a tantas coisas que me fazem querer continuar a lutar e nunca me esquecer de quem realmente sou. Eliminei coisas que não me faziam bem e principalmente tornei-me cada vez mais numa pessoa assertiva. Fiquei muito impressionado com o alcance das sessões que tive com a associação.

Hoje tenho vontade de viver, sinto-me dono das minhas próprias atitudes e responsável pelas minhas decisões, e principalmente não me sinto culpado pelo o que aconteceu.

Sinto-me uma pessoa livre de preconceito e não sinto mais pena de mim mesmo.

D. – 28 anos

Tenho 28 anos sou casado e tenho uma filha de 6 anos. Fui vítima de violação com 9/10 anos de idade. O agressor era meu tio que vivia na mesma casa onde eu vivia.

Enquanto criança e adolescente nunca falei sobre o que me tinha acontecido. Não me senti à vontade para o fazer porque no fundo acreditava que havia uma percentagem de toda aquela situação que teria sido “aceite ou confirmada por mim”. Através da Quebrar o Silêncio compreendi que é impossível para uma criança daquela idade ter se quer noção para decidir ter relações sexuais seja com quem for até porque, no meu caso, a fase da descoberta do meu corpo ainda não tinha começado.
Passei a minha adolescência e toda a fase de descoberta sexual com um peso nos ombros. Sabia que o que me tinha acontecido tinha sido errado porém a minha personalidade sempre fez com que soubesse disfarçar ou ocultar os meus sentimentos reais, demonstrando a toda a gente que estava sempre tudo bem comigo.

Apesar de demonstrar que nunca havia nada de errado comigo, acabei por desenvolver uma certa falta de credibilidade nas minhas capacidades. O que sempre fez e continua a fazer com que eu seja o meu “pior inimigo”.
Já depois de casado é que senti a segurança e a necessidade de me abrir com a minha esposa e de lhe contar o que me tinha acontecido.
Senti esta necessidade pois com o decorrer dos anos de relação, a minha esposa sentia que havia alguns momentos do meu dia ou até alguns assuntos que quando mencionados alteravam a minha forma de estar; apesar de eu achar que todas as “capas ou camadas protetoras ” criadas ao longo da minha vida fizessem com que parecesse que estava tudo bem.
Só após esta abertura para com a minha esposa é que começamos a procurar ajuda e descobrimos a Quebrar o Silêncio.

Através das sessões de terapia, fomos encontrando  pontos de ligação entre o que me tinha acontecido e a pessoa que sou hoje. De facto, este tipo de exercício ajudou a compreender melhor quem sou e a razão pela qual ajo de determinada maneira.

Sinto-me mais seguro, mais confiante e sem qualquer problema em falar do que me aconteceu. Na verdade após terminar a terapia, ganhei coragem para contar o sucedido a mais 2 pessoas que considerei importantes.
Senti-me muito bem recebido e encaminhado por toda a equipa da Quebrar o Silêncio. Em momento algum me senti forçado a falar, muito pelo contrário.

Estou muito agradecido a toda a equipa pela ajuda proporcionado e se também passou por algum problema do género aconselho vivamente a entrar em contacto com esta equipa, seja por telefone ou até por email.

S. – 32 anos

Sem dúvida nossa vida é baseada em dois períodos: o ANTES E O DEPOIS. Antes eu era apenas uma vítima que tentava a todo custo negar para mim mesmo que tal situação tinha acontecido comigo. Reprimia tanta emoção que os meus sentimentos transformavam-se em raiva e ódio. Eu era intolerante com qualquer situação e acabava tratando mal as pessoas ao meu redor. Tudo porque eu não sabia lidar com as minhas emoções, não sabia como dizer que tinha algo de errado comigo. Nunca contei para ninguém sobre a violência sexual de que tinha sido vítima. Mas chega um ponto na sua vida que não tem mais como esconder, chega um momento que você vai ter que enfrentar a sua realidade.

Quando chegou o meu momento resolvi procurar ajuda. Pesquisei na internet histórias parecida com a minha e encontrei a Quebrar o Silêncio. Não foi fácil falar e relembrar tudo o que lutei durante toda a minha vida para esconder de mim mesmo. Depois que comecei a ter as sessões com a psicóloga na Quebrar o Silêncio, ela deixou-me no controlo da situação e respondeu o que eram dúvidas e sentimentos reprimidos. Fui aprendendo a controlar e a partilhar o meu fardo porque encontrei apoio em alguém que pudesse ouvir-me sem me criticar. Fui aprendendo aos poucos como me libertar de tal situação. Sem dúvida procurar ajuda é como um divisor de águas na sua vida.

Sua qualidade de vida muda e você deixa de ser uma vítima para se tornar num Sobrevivente. Sou muito grato a Deus pela Quebrar o Silêncio e a Drª Filipa.

Não se cale, peça ajuda!

João – 49 anos

Antes de conhecer a Quebrar o Silêncio, vivia em silêncio sem ter a noção de que silenciava anos de anulação dos meus sentimentos e emoções. A palavra sobrevivência era-me estranha, pois acreditava que o que me havia sido infligido era algo terrível, sentindo-me culpado e revoltado por não ter tido forças para vencer o predador.


A terapia desencadeou em mim toda uma série de processos de compreensão da natureza da minha sobrevivência e no modo defensivo como então vivia: sempre num vazio interior face a um exterior de fugas e labirintos para nunca regressar ao passado.

Hoje sinto que deixei o estádio de sobrevivência para estar numa vivência das emoções que outrora recalquei. Sou mais livre, mais natural e até passei a ter prazer pessoal no que sou e não só no que faço. Libertei as emoções da cave e deixo-as fluírem em mim com naturalidade. Graças à ajuda clínica da Quebrar o Silêncio superei a fronteira entre ser e parecer. Hoje sou mais genuíno e mais pessoa em todos os sentidos, pois não anulo aspetos humanos meus. Hoje sou capaz de dizer o que sou e o que sinto.
João

Luís Miguel – 56 anos

O meu nome é Luís Miguel, tenho 56 anos de idade, e sou um sobrevivente de abuso sexual. Fui abusado sexualmente pelos meus dois irmãos mais velhos. Não sei exatamente que idade tinha, mas presumo que tenha sido entre os 6-7, e os 10-11 anos de idade.

Lembro-me de pouca coisa, mas é o suficiente para entender a vergonha, medo e raiva que senti sempre ao longo de todos estes anos. O suficiente para entender também o meu percurso de vida, desde criança: consumos constantes de substâncias psicoativas, dúvidas constantes sobre a minha capacidade individual, incapacidade constante de definir fronteiras emocionais… Nunca completo, nunca eu – como se a minha vida fosse uma história a que assisto, uma história a que procurei sempre retirar (ou ocultar) a minha vergonha, o meu medo, e a minha raiva.

Serei sempre eu, com tudo o que sou, faço e tenho, e com as marcas emocionais do abuso; uns dias mais difíceis, outros menos difíceis, mas em cada dia não aceitando que tenha acontecido, e não aceitando também a única resposta que tive de um dos meus irmãos: “Isso foram brincadeiras de criança em que todos participaram”, ou, igualmente inaceitável, a única referência ao assunto que tive da minha mãe – “Os mais velhos protegem os mais novos”.

Eu não estava a brincar, porque nem sabia o que estava a acontecer, e só participei porque estava lá, não porque tenha escolhido participar na “brincadeira”; já no que respeita à “proteção”, nem sei o que dizer.

Quando o abuso sexual de crianças, meninas ou meninos, acontece na própria “família” (incesto), ou com “pessoas” próximas da família, para além da violência que o abuso sexual é em si, outras coisas importantes são obliteradas: a confiança no próximo, a noção de proteção do núcleo familiar, e, acima de tudo, a noção de respeito por si próprio – e pelos outros. Passamos a sobreviver – só com esforço constante conseguimos – se formos capazes – de funcionar de forma socialmente equilibrada.

Quando cheguei à Quebrar o Silêncio, estava no limite da sobrevivência – sem exagero. O próximo passo poderia ser não sobreviver, o que acontece a tantos meninos-homens e a tantas meninas-mulheres sobreviventes de abuso sexual.

Por favor, a vosso favor, e a favor de todos, Quebrem o Silêncio.

P. – 55 anos

Acreditei por muitos anos que o abuso sexual que sofri na infância não afetaria a minha vida adulta e que conseguiria sozinho resolver as consequências advindas desse acontecimento. Na verdade, essa suposição baseava-se no temor de contar a terceiros  o que o havia acontecido comigo e por acreditar que era psicologicamente forte e que resolveria meus traumas de forma autónoma. 

Trinta e tantos anos passaram-se e guardei muito bem esse facto, que ora tornava-se pesado demais e sem solução aparente, parecendo como se o mesmo tivesse acontecido com outra pessoa e não a mim próprio. Desconectei os problemas da minha vida adulta com o facto do abuso por muito tempo. Entretanto, percebi que a síndrome do pânico, a falta de auto estima, o desalento e uma dependência excessiva de sexo tornaram-se problemas que não mais poderiam ser acobertados e resolvi enfrentá-los. 

Com a terapia efectuada com a Dr.ª Cláudia percebi que os problemas da vida adulta eram senão totalmente reflexos do abuso que sofri e estavam de alguma forma a ele atrelados. Falar do abuso e desmistificar alguns dos mitos fez perceber que fui e sou um sobrevivente. Nenhuma criança, em seu processo de amadurecimento, pode lidar com tantas emoções sem efeitos adversos. Para mim o mais impressionante foi perceber que, apesar de me considerar uma pessoa inteligente, usei subterfúgios emocionais para não olhar o meu passado. Aceitar o que aconteceu e seguir em frente foi o melhor que aconteceu no percurso terapêutico. 

Filipe – 34 anos

Na minha infância, fui vítima de três agressões sexuais por parte de pessoas conhecidas e mais velhas, em diferentes etapas do meu desenvolvimento. Estes actos foram cometidos por dois homens, em situações distintas e pontuais; e por uma mulher, de forma continuada. Conhecia-os a todos, uma destas pessoas é família próxima.
Os episódios com os homens, esqueci-me deles, literalmente, tendo eles voltando ao cimo da memória, décadas mais tarde, em que sozinho na cozinha, lembrei-me do que me tinham feito. Só já homem adulto, consegui dar um nome ao que os homens me tinham feito.

O pior, tinha sido o primeiro episódio: com uma mulher da família. Como fui criado em ambiente religioso, para além da vergonha que se alguém soubesse desse segredo, esse pecado iria, mais cedo ou mais tarde mandar-me para o inferno.

Para além de uma infância em terror religioso, na adolescência e nos primeiros anos de adulto, surgiam dúvidas estranhas: será que vou fazer o mesmo a outros? Será que sou pedófilo? Será que sou gay (o meu entorno social não permite esses comportamentos “desviantes”)? Será que me vou transformar numa má pessoa.
Durante anos, em silêncio, lembrava-me do que me tinha acontecido e em silêncio sofria.

Ao longo dos anos via nas notícias que o que me tinha acontecido, ainda acontece a outras crianças e sempre pensava: o que será feito deles? Com certeza iriam ser homens adultos como eu, com os mesmos medos, a mesma vergonha e a mesma culpa que eu. E, claro, nunca podiam falar sobre isso a outros homens.

Durante muito tempo, pensei numa ideia de ajudar outros homens que tinham tido o mesmo azar que eu, porque tinha sofrido tanto sozinho, sem partilhar a minha dor com ninguém, consumido por ideias e dúvidas aterradoras. Havia de fazer alguma coisa. Nessa busca, encontrei a Quebrar o Silêncio.

Apresentei o meu caso e encontrei-me com a Dra. Cláudia, a primeira pessoa desconhecida, a quem expus a minha privacidade mais íntima. Soube-me bem, senti-me muito forte, ao expor-me assim a alguém! Sabia que aquela pessoa estava ali para me ouvir e para me ajudar. Sem complexos, nem avaliações. A Dra. Cláudia foi a primeira pessoa que soube da história toda, de uma vez só. Apenas a minha esposa tinha sabido do que me tinha acontecido vários anos depois de vivermos juntos.Falar sobre o que me acontecera com alguém que não conhecia, foi libertador e empoderador. Perdera a vergonha de uma coisa que não tinha tido culpa.

A convite da Dra. Cláudia, integrei o Grupo de Ajuda Mútua durante vários meses. Durante as nossas sessões semanais, pude expor a outros homens que partilhavam as suas histórias, sem qualquer vergonha. Ouvir aqueles homens que também tinham sofrido em silêncio, foi importante para mim, para começar a poder a viver com o meu passado.

Para mim, aquele local, onde os homens conseguiam falar – a custo, claro – e a exporem-se e serem compreendidos, foram momentos de aceitação, compreensão, força e libertação. Naquelas horas que passámos no grupo, aqueles homens tão distintos – na maneira de ser, estar, vestir, nas profissões, nos passados pessoais e académicos, juntavam-se ali, por questões de um passado terrível, para poderem dialogar.
É complicado para um homem falar destas coisas. É tabu! Dos mais complexos e mais fechados na nossa sociedade. Um homem tem de ser forte! E se foi vítima, “é porque sempre foi maricas”; “se deixou, é porque gostava”, etc. E isso faz-nos viver vidas de solidão.

Este grupo fez-me aprender com a experiência de homens mais velhos, que sofreram imenso e que tiveram as mesmas questões que eu. Ouvir e reflectir, para poder compreender, respeitar e ajudar. Cada semana, depois das sessões, depois de ouvir aquelas histórias trágicas, sentia-se no ar a força e a esperança daqueles homens que perderam o medo e que ali debitavam o que tinham escondido durante décadas. No grupo somos como uma família que se une numa tragédia comum, mas que se respeita e se compreende.

Após as sessões, consegui encarar aquilo que me tinha acontecido de outra maneira. Tornei-me melhor pessoa e mais forte. Mais atento. As sessões levaram-me a pensar e a repensar as coisas, o mundo e tudo aquilo que me tinha passado. O que antes eram memórias que tentava esquecer a custo, são agora memórias do meu passado que lá estão e aprendi a viver com elas e agora já não me deprimem, nem me fazem mal.

Tenho tudo a agradecer ao Ângelo por ter iniciado este projecto e àqueles homens gigantes que semanalmente partilham as suas histórias e que, naquele círculo, quebravam as barreiras do silêncio. Este projecto é importantíssimo, crucial na nossa sociedade, onde estas coisas são tabu, se não são mesmo o tabu supremo, mas mais crucial ainda na vida dos sobreviventes.
À associação, ao Ângelo, aos homens sobreviventes, o meu eterno obrigado. Sou melhor pessoa hoje, do que alguma vez fui!

Deixo uma palavra de encorajamento a quem tenha dúvidas ou medo: quando chegámos, na primeira sessão, todos tivemos medo. Mas, nas sessões seguintes, criámos um grupo forte, onde tínhamos a oportunidade de falar e crescer em conjunto.
Se é homem e foi vítima de abuso, fale! Quebre o silêncio!


Se foi vítima de violência sexual e precisa de apoio contacte-nos 📧apoio@quebrarosilencio.pt 📞 910 846 589

Os nossos serviços de apoio são confidenciais e gratuitos.

#quebrarosilencio

J. – 28 anos

Vir à Quebrar o Silêncio foi uma decisão muito difícil que tomei. A própria tomada de decisão de entrar em contacto com a Associação foi um processo – assumir que havia uma questão para resolver, assumir que precisava de ajuda, combater as desculpas que arranjava para mim próprio, combater o estereótipo, a vergonha, o medo.
Apesar de ter sido difícil, foi uma decisão que mudou a minha vida para muito melhor!
Marquei a primeira sessão com o Ângelo, honestamente, com pouca segurança de que efetivamente ia comparecer. Foram precisas todas as forças que tinha para realmente aparecer – e mesmo nessa altura, na minha cabeça, estava a ser tonto porque sentia que estava tudo bem, mesmo sabendo que não estava.
Quando saí da primeira sessão, sem sequer ter havido grandes conversas sobre algo em concreto, senti-me muito melhor, mais leve, como se um peso enorme me tivesse saído dos ombros. Fizeram-me sentir confortável e acompanhado e isso, uma coisa tão simples, mudou-me e ajudou-me tanto.
Tinha começado o meu processo, um processo difícil, mas importante.
Nas sessões com a psicóloga, a Dra. Cláudia Caires, o ambiente é de calma e segurança. Aquela sala é um espaço onde me senti muito seguro, mesmo a falar de coisas que nunca tinha detalhado com ninguém. Senti-me sempre em controlo do processo, que o caminho a percorrer era meu e tudo foi altamente gratificante.
Não posso dizer que foi fácil. Antes pelo contrário. Todo o caminho foi difícil e complexo. Dias houve em que saí das sessões bem e calmo, outros dias saí a chorar e a sentir-me a pior pessoa do mundo. Mas no fim, tudo se organizava, tudo acalmava e ia sendo processado. E quando tudo acalmava, era como se mais uma parte de mim tivesse melhorado e ficado mais forte.
Hoje começo a ter “a casa arrumada”. Tenho as ferramentas necessárias para lidar com o que me aconteceu no passado e para processar emocionalmente os eventos “normais” da vida com que tinha dificuldades em lidar por traumas do passado.
A Quebrar o Silêncio mudou verdadeiramente a minha vida. Hoje sou um homem completamente diferente do que era quando entrei pela primeira vez em contacto com a Associação. Sinto-me uma pessoa melhor e mais em paz. Fiz as pazes com o meu passado e comigo próprio e estou confiante no meu futuro, com esperança e fé renovadas.
O processo não acabou quando acabei as minhas sessões. O processo continua, por mim, todos os dias. Mas agora tenho as ferramentas para o poder continuar sozinho, sabendo que se precisar, a Quebrar o Silêncio está sempre para me ajudar. E hoje sei que estou bem.
Carregar um fardo de violência sexual é algo pesadíssimo. Sentir no mais íntimo de quem somos que não precisamos de ajuda, que somos homens e não sofremos este tipo de violência, que temos de ser fortes, que homem que é homem aguenta – tudo isso é pesadíssimo. Mas tudo isto é um mito gigante e na Quebrar o Silêncio há pessoas prontas para nos apoiar e para nos retirar este fardo de cima. Não estamos sozinhos, nunca estivemos sozinhos, mesmo quando nos sentimos o mais sozinhos.
Obrigado à Quebrar o Silêncio e um abraço grande a todos.
Não estamos sozinhos.

J. – 46 anos

O meu nome não interessa. Tenho 46 anos e hoje sou capaz de falar de mim, de me abrir com alguns dos que me são mais próximos. Devo esta capacidade a muitos fatores, dos quais um é a Quebrar o Silêncio, que me levou a perceber que não estou sozinho.

Sobreviver a um abuso é tão mais estranho quanto a consciência do que aconteceu esteve escondida e suprimida.

Quero, neste testemunho, explicar o que é uma vida tornada em caos pelo capricho de um homem que entende que o seu prazer se sobrepõe à dignidade da criança que fui e que se destruiu.

Crescer com um abuso que se apagou da memória é crescer como aqui relato.

É sentir-se, desde a infância, culpado e incapaz. Olhar para os pais, para os irmãos, para os amigos, e sentir-se que se está a falhar em qualquer coisa, que não se é suficiente para os outros, que é preciso agradar e não se sabe como. Falho-lhes sem que eles o percebam. Só eu é que percebo o quanto falho, mas não consigo dizer que falha é essa.

É, desde os seis anos, passar noites em claro. Não conseguir dormir por ter medo de um pesadelo que vem todas as noites e que não se consegue explicar. Um pesadelo em que estamos nus com um homem que nos assusta e não nos deixa sair de onde estamos. É sentir que não podemos falar deste sonho a ninguém, porque a culpa de o sonhar é nossa. É ir para a cama e ter medo de dormir, ter medo que o sonho volte. É já não ter seis anos, mas sim vinte, trinta, quarenta, e ter medo da noite.

É sentir a angústia da insuficiência. É sentir o medo de nos despirmos em frente a outros sem sabermos porquê.

É, num período em que se vive sozinho, beber, beber muito para nunca pensar em nada, sem sequer se ter consciência da razão pela qual se precisa tanto de beber para esquecer. Na verdade, para esquecer o que ainda não recordamos.

É enterrar-se no trabalho, nas mais variadas atividades, ocupar o dia, os dias, até à exaustão, esgotar-se a si próprio para se esquecer de si próprio.

É chorar sozinho. Chorar muito sozinho. É, desde muito cedo, procurar lugares isolados e chorar sem saber porquê. É pegar no carro e ir para lugares distantes só para chorar. E nunca saber porquê.

É não gostar de si, mas viver com um sorriso, porque ninguém pode saber. Ninguém pode saber, porque nós próprios não sabemos porque não gostamos de nós. Mas repetir-se todos os dias: tu não prestas.

É não saber o que sentimos quando nos apaixonamos. É construir uma família maravilhosa e ter medo de a destruir. É sentir-se perdido e ter medo de amar. E, por isso, ser-se distante dos que mais amamos, porque achamos que eles merecem melhor.

É conceber o fim da nossa própria vida desde a mais terra infância. Planear o suicídio, tentá-lo, viver na esperança contraditória de que a vida só se cumprirá quando acabar. Mas ter medo de o fazer porque a missão é agradar. É acordar de manhã com pena de ter acordado, é ir na estrada com o secreto desejo do acidente que vai apagar tudo. É ler sobre formas de acabar com tudo. E é fazê-lo durante mais de trinta anos.

É crescer crente e tantas vezes descrer. É não querer aceitar uma tristeza que sinto e não explico no quadro de uma fé vivida. É olhar à volta, ouvir e ler, e ter medo da palavra “culpa”, porque ela está lá sem saber porquê. E, por isso, viver zonas negras nessa fé, mas não as partilhar, por estar sozinho.

E tudo isto na infância, na adolescência, na idade adulta, vivido no mais total isolamento, na mais completa solidão. Sem saber o que é isto tudo, sem saber porquê isto tudo.

É sentir-se perdido quando a verdadeira dor, da perda, chegou. Tentar, mais uma vez, compreender o incompreensível e não conseguir gerir a dor.

É entregar-se à depressão. Viver entupido em antidepressivos, dominado por dores de cabeça que não desaparecem. É viver a espiritualidade com desconfiança. É desconfiar de si porque se desconfia dos outros.

E é, já aos trinta, aos quarenta anos, continuar a chorar sozinho e com medo de mostrar a dor. Por uma razão simples. Porque essa dor não se compreende.

No meu caso, chegou o dia em que tudo se revelou. Uma memória escondida, que se entrevia nos pesadelos, tornou-se vívida de repente, real, assustadora. Uma memória que demorou exatamente 40 anos a manifestar-se.

Foi aos quatro ou cinco anos, foi numa praia, foi um homem de quem se guardava uma boa representação – e como isso dói. Não lhe vejo a cara, mas vejo tudo o resto. Recordo as palavras, a sedução, o toque, o engano, a violência e a vergonha. Irrita-me e fere-me sentir que gostei daquele homem, que pensei nele durante muitos anos sem perceber porquê. Tocava guitarra e com a música seduziu-me. Manipulou-me. Fez-me nunca falar dele. Será real esta memória que chega de repente e me atropela como um camião? Transporto-me para o lugar onde tudo aconteceu e, perguntando aos que lá estiveram sem falar do horror que recordei, descubro que esse homem existiu, que o lugar existiu, que a oportunidade existiu. Foi verdade. Tudo aconteceu. Choro durante dias. Fecho-me durante meses. Peço que me abandonem para não contaminar com a minha sujidade a vida da minha família. Horrorizo-me. Entendo tanta coisa. Mais uma vez tento acabar com a vida. Salvo pela consciência de que não podia fazer isto aos meus. O meu sofrimento não pode ser gerador do sofrimento de outros. A memória chega e o pânico instala-se. Deixo de dormir, choro o terror do confronto com uma realidade que apaguei.

A dúvida é terrível. O gostar que não tivesse acontecido faz com que, todos os dias, me tente convencer de que não aconteceu, não é, não foi, não pode ser.

Mas sei que foi. E sei o quanto me destruiu. O quanto apagou de mim, o quanto fez de mim o abafador das minhas próprias emoções, o quanto me fez viver em medo e em choros não partilháveis. Fugi tanto que fugi de mim mesmo. Alienei-me. Fiz-me o engraçado, o menino que tinha de ser brilhante, que não se podia expor. Fiz-me o profissional de sucesso. Fiz-me o sempre positivo, que cá dentro sabia que não era. Fiz-me o exemplo da autoestima. Fiz-me fraude e engano. Fiz-me a mentira interior da recusa em ver a verdade que me feriu.

Leio e partilho outros relatos e penso tanta coisa contraditória. Os outros sofreram mais, foram vítimas de situações continuadas, terríveis, muito mais violentas. Não tenho o direito de me queixar. Só posso calar a minha dor novamente. Penso que a violência que sofri não vale nada comparada com a dos outros. Esqueço-me outra vez de mim. Esqueço-me outra vez que também tenho direito a chorar. Proíbo-me de sofrer e, por isso, sofro muito mais.

Na solidão, na tortura de me achar incapaz de fazer os outros felizes por eu próprio não ser feliz, no sentimento de viver em encruzilhada por ter gostos e vivências incompatíveis com o que sou e quero ser, no desespero de me esgotar a tentar agradar e sentir que nunca agrado, procurei ajuda. Foi no quadro dessa ajuda que esta memória veio. Abri gavetas fechadas, mexi em zonas para que não queria olhar e a tortura instalou-se. Mas ainda bem que me encontrei na procura desse menino que fui e a quem eu não queria dar colo.

Foi paradoxal. O horror foi acompanhado de uma integração de tanta coisa desconexa. Junto as pontas soltas das insónias, das inseguranças, da máscara que montei na minha vida, das infidelidades a mim mesmo, das sombras negras da minha fé.

Procurei ainda mais ajuda. Partilhei com a Quebrar o Silêncio. Primeiro, em anonimato. Depois, com cara e nome. Senti-me apoiado e percebi que não estou sozinho.

Falei com duas grandes amigas. Elas estiveram cá. Percebi que não é preciso viver tudo sozinho, que talvez não seja culpado. Conversei com outro grande amigo, que me mostra a importância de rir, de não me fechar em mim.

Também dei o passo fundamental que era preciso dar. Partilhei tudo com a minha mulher. Tinha tanto medo de que tudo acabasse, que ela deixasse de olhar para mim com amor, que sentisse que vivia com um perfeito desconhecido. Pedia-lhe para não gostar de mim, porque sempre senti que não presto. Mas ela não podia não saber o que sou e o que sinto. Não podia passar mais anos a quebrar-me ao lado dela sem ela entender. Tenho uma mulher extraordinária. A sua reação revela que fui abençoado com a melhor pessoa ao meu lado. Mas falei com ela porque houve um caminho feito até aqui. E agora posso começar a escrever um futuro ao seu lado.

Todos eles me dizem que este abuso, de que eu não tinha sequer memória, não me define. Que eu sou muito mais do que isso. Agarro-me a essa verdade ainda com fraqueza. Não me define, mas vejo o quanto me marcou, o quanto me destruiu, a fragilidade disto tudo. Dizem que eu sou muito mais do que aquele momento em que fui violado na praia. Serei. Já fiz coisas boas na vida. Mas a vida ao lado, a que ninguém viu, esteve sempre cá. E ainda cá está.

Sinto-me mais capaz de olhar para a frente, mas há muito por fazer, por interpretar, por reconstruir.

Quero ajudar outros. Quero ajudar a que vivamos num tempo e num espaço em que mais nenhuma criança é ferida, em que mais nenhuma criança tem de fugir de si, de se alienar, de ter medo de dormir, de ter medo daquilo com que pode sonhar.

Escrever este texto é bom. Porque sinto que, ainda que sem nome, posso partilhar. E partilhar permite pensar num futuro em que, porque já não me escondo de mim, posso vir a sorrir na vida pública, no espaço dos outros, mas também no meu espaço interior.

Obrigado, Ângelo, ao meu psicólogo, aos que me têm ajudado, às partilhas e textos que tenho lido, à minha super mulher por me começarem a abrir uma nesga de uma janela que deixará, um dia, com tempo e perseverança, deixar entrar luz na minha vida.

F. – 27 anos

Compartilhar a minha história com alguém, foi algo que eu acreditava jamais ter coragem de fazer. Eu sempre pensei que ia levar isso como segredo para toda a vida.

Fui abusado sexualmente por dois homens próximos da família, entre os quatro e seis anos. Por muito tempo eu carreguei esses abusos com um sentimento profundo de culpa e de vergonha. Culpa porque eu sentia que gostava e cresci com a certeza de que eu era um monstro também. Ao longo dos anos eu fui alimentando esse monstro imaginário, até que em certo momento o desgosto e a vergonha me consumiram de tal forma que eu já não via mais sentido em existir.

Aos 26 anos eu entrei em total colapso nervoso, já não conseguia dormir, pensava nisso 24 horas por dia, desenvolvi fobias sociais, transtorno de ansiedade, ataques de pânico, cheguei ao ponto de reconhecer o cheiro do abusador em alguém que passava na rua.

Eu decidi procurar ajuda e criar coragem para contar a minha história e falar sobre tudo que assombrava, porque essa seria a minha única chance de sobreviver. A Quebrar o Silêncio me estendeu a mão e com muita paciência, com a ajuda do acompanhamento psicológico eu consegui me livrar do peso e da culpa. Consegui controlar a minha ansiedade e os pensamentos obsessivos. Hoje eu consigo olhar para essas lembranças, sem que elas me façam mal. Essas lembranças vão sempre estar ali, mas elas já não me machucam mais.

Antes de entrar em contacto com a Quebrar o Silêncio, eu li todos estes testemunhos e na época lembro de me perguntar se um dia seria eu a escrevê-lo. Pois bem, hoje estou aqui. Foi um caminho de auto descoberta e de perdão. Se algo parecido aconteceu com você, não tenha medo de se abrir, peça ajuda. Não foi culpa sua, você merece ser feliz, você merece viver.

Miguel – 50 anos

Chamo-me Miguel, tenho 50 anos e sou um sobrevivente.
Este é o meu verdadeiro nome. E com o meu verdadeiro nome posso falar da minha história para quem quiser ouvir. Isto que acabei de escrever era algo impensável há cerca de um ano quando iniciei a minha viagem em direcção à paz.
Num dia de desespero e de muita angústia, percebendo que não conseguia viver mais com fardo que carreguei toda a minha vida, e já depois de ter tido conhecimento da Quebrar o Silêncio, escrevi um pedido de ajuda.
Esse pedido ficou guardado nos rascunhos durante algum tempo. Tinha perdido a coragem… Outra vez. Mas a dor continuava… E no dia 5 de Novembro de 2017, carreguei na tecla enter… Tinha enviado… E agora!? O que raio acabaste de fazer?, pensei eu. Passaste uma vida inteira a esconder isso, a não falar disso com ninguém, e agora envias uma mensagem a desconhecidos!?
Para piorar a situação o Ângelo respondeu-me logo no dia 6. Devo ter ficado uma boa meia-hora a olhar para a mensagem com o cérebro totalmente bloqueado. Ainda assim resisti, com alguns subterfúgios que ia arranjando, só tive a primeira sessão a 5 de Dezembro. Mas deixem-me falar um pouco de como vivi estes 50 anos.
O primeiro abuso deu-se quando eu era muito novo, tão novo que não me lembro da idade, mas estava naquela idade em que as crianças têm que se deitar cedo. Estava numa pequena aldeia, onde havia por essa altura uma festa. Quando lançaram os foguetes eu comecei a chorar com medo e assustado. Por isso um primo meu, na altura adolescente, foi deitar-se comigo, segundo ele para eu não ter medo. Passado poucos minutos fui completamente maniatado por ele, a partir daí só sentia dor que contrastava com a voz calma dele a dizer que não fazia mal, que estava tudo bem. Se era normal porque é que doía ao ponto de me fazer chorar. Não me lembro quantos dias permaneci com os meus pais na aldeia. Mas a partir daí, ele e outro primo meu todos os dias me faziam a mesma coisa. Por fim lá foram dizendo que se contasse a alguém, eles diziam que tinha sido eu a pedir, e que os meus pais iam ficar muito zangados comigo. Devo dizer que com isto fiquei aterrorizado pois os meus pais sempre fizeram questão de dizer que eu era um menino muito parvinho, pouco espevitado.
Com isto o meu silêncio ficou garantido.
Pouco tempo depois um desses primos foi viver a convite dos meus pais, para nossa casa. Escusado será dizer o que veio a acontecer todas as noites. Com a agravante que quando o outro primo nos ia visitar eles revezavam-se. Aí a chantagem mudou, diziam que contariam a todos os meus amigos se eu não deixasse.
Com o passar do tempo, assim que se aproximava a noite o meu medo era tal, que chegava a desmaiar. Tentei contar aos meus pais, mas assim que começava a dizer que o meu primo me fazia mal, apanhava ainda por cima, pois era impossível tão boa pessoa fazer-me mal.
Passado um tempo fui passar um natal a casa de uma outra parte da família, onde vivia uma prima que eu adorava. Acontece que numa das noites ela foi até à minha cama e também ela abusou de mim. Foi nessa altura que comecei a acreditar que afinal todos tinham razão, a culpa não era deles. Era eu que tinha algum defeito e que era normal que isso me acontecesse.
Aos meus doze anos esse meu primo saiu de casa dos meus pais. Altura em que os meus pais me mandaram trabalhar para uma panificadora onde conheciam uma pessoa. Como se sabe nesse ramo por altura do Natal há sempre muito trabalho. O que fez com que tivesse que passar lá algumas noites, e ia descansando aos poucos. Numa dessas noites no quarto onde eu ia descansar, fui novamente abusado por duas mulheres já adultas, o que veio consolidar o que eu pensava de mim. Eu não prestava.
A partir desse momento entrei numa espiral de auto destruição. Comecei a consumir drogas muito cedo, não foram raras as vezes em que dei entrada em hospitais com overdose ou coma alcoólico. Saí de casa muito cedo, e comecei a vaguear por todo o lado. Prometi a mim mesmo que mais ninguém me tocaria, aprendi a lutar. Pensado que, com isto, o problema estava resolvido… Não estava. Não conseguia viver comigo mesmo, só serviu para magoar quem me rodeava. Pois achava que se atacasse logo já não era magoado. Mas continuava em modo auto-destrutivo. Nunca fiz um único amigo. Não tendo coragem para me suicidar, um dia desisti de mim próprio e fui viver para a rua. Nessa altura trabalhava numa grande empresa, mas no fim do dia não conseguia voltar para casa. Tomava banho com outros companheiros de rua em balneários públicos, e lá ia eu trabalhar a maior parte das vezes sob efeito de qualquer estupefaciente. Muita gente já reparava que havia algo de errado, mas eu tinha criado uma personagem, e era bom em representá-la. Apenas queria que algo de mal me acontecesse e me levasse à morte. O tempo passou, todas as pessoas com quem me envolvia eram doentias, o sexo com elas causava-me asco.
Só me apaixonei uma vez, mas a dada altura essa pessoa deixou-me. Normal. Voltei a encontrá-la quinze anos depois. Casámos e tivemos uma filha. Mas ainda assim eu não estava a ser bom para elas, pois o meu personagem era uma pessoa má. Até que quatro anos depois tomei conhecimento da Quebrar o Silêncio. A abordagem já vocês sabem como foi.
A primeira pessoa que me recebeu na Quebrar o Silêncio foi o Ângelo, se me perguntarem hoje quais foram as palavras dele, não me lembro. Sei que passado algum tempo disse que eu ia começar a ter consultas de psicologia, e chamou a Dra. Cláudia à sala. Quando ela entrou deve ter acontecido alguma coisa com a minha vista, pois só vi dois vultos, não distinguia feições.
Quando acontece a primeira sessão, a Dra. Cláudia foi esperar-me à porta para nos dirigirmos à sala, nesse momento senti que não era eu que ia com ela, mas sim aquele menino tanta vez violentado e indefeso.
Digo-vos que a partir desse dia a minha vida mudou como eu nunca imaginei ser possível. A Dra. Cláudia, qual arqueóloga, foi quebrando com muito cuidado a armadura de pedra que eu já achava ser perpétua. O seu trabalho tremendo fez com que me sentisse cada vez mais à vontade e, durante esse tempo comecei, a descobrir que o mundo tinha cor, não era só cinzento e negro, que havia pessoas boas, e que no fundo eu era uma delas. Hoje acredito sinceramente nisso. Não tive qualquer culpa do que me aconteceu, fui uma vítima. Mas agora sei que mereço viver. Até porque descobri que estou casado com uma pessoa fantástica que precisa de mim do seu lado, e que me deu uma filha linda que merece um pai em paz. Não me queria alongar tanto, mas acreditem que isto é só um resumo.
Não sei quantas vítimas vão ler este texto, mas se ele servir para uma, nem que seja só uma a querer encontrar a paz, terá valido a pena escrever estas linhas. Na Quebrar o Silêncio vão encontrar respeito, apoio, alguém que vos entende, pessoas que já passaram pelo mesmo. Em Suma NÃO ESTÁS SOZINHO. Agradeço para sempre a todas as pessoas da associação particularmente à Dra. Cláudia que através das suas palavras me fez voltar à vida.
Estarei disponível naquilo que for possível para ajudar.
Bem haja a todos.
Miguel

José – 46 anos

EU SOU UM SOBREVIVENTE!
Peço desculpa por começar com caps lock, negrito, itálico e sublinhado, o meu testemunho. Esta forma como iniciei, foi a maneira que encontrei para exprimir o orgulho e alegria com que hoje o digo.

O meu nome é José e tenho 46 anos de idade e quase os mesmos de sofrimento silencioso. O facto de o meu nome constar, não se trata de vaidade e de querer aparecer. Mas sim, pelo facto de ter perdido o medo de ter sido vítima de abuso sexual. Algo impensável para mim no início do ano de 2018. Nasci na “maternidade” Associação Quebrar o Silêncio, pelas mãos dos parteiros Ângelo e Cláudia. O que acabei de escrever, representa o que eu achava de mim e da minha vida, para sentir que voltei a ter uma nova vida.

Nunca tive uma infância como a maioria das pessoas. Aos meus seis anos de idade, já tinha bastantes responsabilidades de um adulto. E muito antes dessa idade, já era usado como objeto sexual de alguns homens adultos. Penso que qualquer pessoa com um pouco de sentimentos, poderá imaginar o que daí pode advir.

Acreditem, o corpo violado ao nível físico, para mim, nada é e nada significa hoje. O que dói e o que ficou em trapilhos, foi a alma. Não saber o que é infância, não poder confiar em ninguém, com muita gente ao redor mas só no mundo. Certamente, uma criança que tenha de aprender as coisas da vida da pior maneira, irá ter grandes problemas e dificuldades ao longo da vida. É uma condenação perpétua. O que fiz para merecer isso? Simplesmente existir!

Os anos foram passando, a minha forma de agir com o mundo, foi sempre como se estivesse em estado de guerra com tudo e com todos. Isso, como é de imaginar, traz muitos outros problemas. Poderia enumerar muitas coisas do ser horrível que me tornei. Julgo, no entanto, que não vale a pena descrever o que já não existe.

Foi neste estado que cheguei às mãos dos parteiros acima referidos.

Nunca antes, tinha falado deste assunto com estranhos, só com a minha esposa. Não foi fácil para mim, chegar perto de outro homem e assumir que a minha masculinidade já não era pura. Mas o Ângelo, com a sua forma de ser e estar, não me fez sentir como se eu fosse um “extraterrestre”. Aceitou-me de imediato para que eu fosse acompanhado por um psicólogo da associação. Quando ele me diz que, o psicólogo é uma psicóloga, foi como um balde de água fria. Se já não foi fácil expor-me a um homem, era inconcebível para mim expor-me para uma mulher. E depois, o que sabe uma mulher sobre as dores de um homem sem nunca o ter sido? Foi assim que pensei e disse. Não muito convencido, e para dar uma oportunidade a mim mesmo de poder dizer “eu tinha razão”, lá aceitei o que seria a primeira e última consulta com a Drª Cláudia.

Não sei explicar, também não é importante, só sei que ao fim de alguns minutos, já não via uma mulher à minha frente. Ali estava uma excelente profissional que, afinal sabe bem o que ali está a fazer e que sabe mais das dores e necessidades de um homem ferido psicologicamente, do que eu mesmo sei de mim.

Chorei, alterei-me, ri e voltei a chorar. Os meses foram passando… 1, 2, 3,… comecei a sentir-me bem melhor, ainda que, estivesse longe de estar realmente bem. Deixei de contar os meses.

Foram vários meses que passaram até obter alta. Uma coisa que disse à Drª Cláudia na minha última consulta: “…tenho pena de só agora estar a descobrir coisas novas na vida e ter bem menos anos para tirar proveito.” Penso que isto que disse, mostra bem o tão bem e esperançoso me sinto.

Lamentavelmente, não nasci de novo, o mundo está longe de ser perfeito tal como eu. Sei que vou chorar ainda ao longo da vida. Mas graças a esta equipa da Quebrar o Silêncio, hoje, tenho a certeza, que depois do chorar, vou rir, rir muito e ser feliz. Hoje, sou capaz de traçar objectivos, desviar-me do que me faz mal e procurar a beleza do mundo, a minha beleza. Não há dinheiro que pague o que Eles fizeram por mim. Até porque, o amor não tem preço.

EU SOBREVIVI E AGORA TENHO UMA NOVA VIDA!

Sempre grato,
José 

A. – 56 anos

Antes de ter conhecimento da associação Quebrar o Silêncio eu sentia-me a pior pessoa ao cimo da terra. Não gostava de mim, andava perdido por tudo o que se passou na minha vida em criança como na adolescência, por ter sido violado várias vezes com ameaças e de se terem aproveitado da minha ingenuidade. Eu estava com uma revolta dentro de mim que só me apetecia matar-me, entrei nas drogas para esquecer e estava com uma revolta dentro de mim que nem ligava para a vida que estava a levar.

Certo dia tive conhecimento da associação Quebrar o Silêncio e tive curiosidade em saber como era possível ser ajudado. No começo foi por telefone e conforme as conversas minhas com o técnico da associação deixei de fumar e de tomar drogas, também já estava a tirar um curso para ver se encontrava trabalho. Ao fim de um tempo fui convocado para entrar nas sessões de grupo e a cada mês que passava sentia-me outra pessoa, também com a ajuda da psicóloga da associação.

Hoje sinto-me outra pessoa, mais alegre e sei gerir o meu tempo, como organizar o tempo de lazer. Um muito obrigado, só vos tenho a agradecer.

D. – 32 anos

Desde os meus 19/20 anos que a minha vida tem sido sair do armário, de forma consciente e activa. Isto é, conhecer-me, assumir-me, e aceitar-me. É um processo constante, e por vezes muito cansativo, obriga-nos a lidar com as coisas que nos incomodam, muitas vezes aquelas que não gostamos ou não gostaríamos de reconhecer em nós, como as nossas contradições, as nossas falhas, e aquelas características que dão muito trabalho a mudar. Obriga também a reconhecer as nossas fraquezas, ou melhor dizendo, as nossas vulnerabilidades. Sair do armário é lidar com isto tudo, de frente, é sair da penumbra para a luz.
Há já 10 anos que estou neste processo, e o ano passado, quando senti que o abuso era uma das questões que tinha que enfrentar e resolver (livrar-me desta bagagem pesada), deparei-me com a Quebrar o Silêncio. Creio que uma partilha no Facebook foi o suficiente para eu encontrar a associação. Li alguns testemunhos, mas um em particular foi decisivo, era o que falava sobre a sua experiência de abuso não estar “à altura”, ao mesmo nível, ou ser digna/passível de ser considerada abuso. Foi isso que sempre que tentei procurar ajuda, mesmo sem saber como, ou com que palavras, ou sequer sem saber recorrer à palavra abuso, foi sempre isso que me fizeram sentir. Então o problema só podia ser meu, e consequentemente a culpa do que eu sentia só podia ser minha.

Depois veio a iniciativa, entrar em contacto. Trocar emails, o primeiro que escrevi levou quase 3 meses a ser escrito, tamanho era o desconforto e a dificuldade em relembrar e arranjar vocabulário para descrever aquilo que eu sempre tive tanta dificuldade em compreender.
Depois veio a primeira resposta da Quebrar o Silêncio. E automaticamente criou-se um espaço seguro, mesmo que virtual. Li o email duas vezes, em dias diferentes. Naquele email tive mais apoio, legitimação das minhas emoções e informação sobre o que se passou do que todos os anos até então.
Desde então foi ficando mais fácil, ou menos difícil…
As sessões realizadas com o grupo de ajuda mútua foram (quase) sempre pesadas. Mas ao fim de alguns meses, felizmente, aquele lugar seguro começou a ficar menos pesado. Ao fim de alguns meses comecei a deixar de ser de vítima e passei a ser sobrevivente. Não pelo mediador o dizer em todas as sessões, mas porque finalmente comecei a compreender o que se passou, porque finalmente tinha vocabulário para explicar, e porque, independentemente das experiências de cada um, aquele espaço seguro mostrou-me que quase todos sentimos o mesmo, as mesmas coisas, as mesmas emoções, os mesmos medos, mesmo vindo de sítios diferentes. O respeito e o apoio partilhado entre todos foi verdadeiramente transformador.

No meio deste processo foi possível iniciar também com a Quebrar o Silêncio o acompanhamento psicológico individual. Neste momento aquele exercício de introspecção semanal ganhou um novo fôlego, obrigando-me a processar, estruturar e verbalizar as coisas que me passavam pela cabeça, como os medos, as dúvidas, as sabotagens, mas também as conquistas.
O acompanhamento psicológico individual foi um confronto muito directo comigo mesmo, e que me obrigou a trabalhar para construir a pessoa mais assertiva que sou hoje.

Um pouco como o nosso corpo, temos uma estrutura óssea que nos suporta, mas ela só funciona com os músculos. Sinto que o grupo de ajuda mútua construiu uma estrutura, mas o acompanhamento psicológico individual permitiu trabalhar uma musculatura que me permitisse caminhar, e seguir em frente.

Quero deixar o meu agradecimento à Quebrar o Silêncio, à pessoa que organiza o grupo de ajuda mútua, e que foi o meu primeiro contacto nesta nova jornada, à profissional incrível com quem realizei o acompanhamento psicológico individual, e a todos os homens, corajosos, que me permitiram crescer um pouco mais, mais livre para ser eu próprio.
O mais incrível deste processo é que foi mergulhando no medo, no desconhecido e na dor de lidar com o abuso, que me libertei do peso que tinha na minha vida, de todas as formas directas e indirectas que todos sabemos tão bem, infelizmente. Ele não desapareceu, mas ao sair da sombra permitiu-me compreender melhor a sua dimensão, e o seu impacto na minha vida. A liberdade é sentir que não sou dominado de forma clara ou imperceptível pelos abusos. E poder agir com esse conhecimento é libertador e capacitador, pois permite viver a vida de forma mais clara, conhecer-me melhor, conhecer melhor os meus limites, respeitar-me mais e exigir mais respeito.

A Quebrar o silêncio está de parabéns pelo contributo que dá à vida de todos os homens que sofreram alguma situação de abuso, e também todos os homens, que quando encontram o tempo de procurar ajuda (vamos sempre a tempo de procurar ajuda, e a melhor altura para o fazer é quando a pessoa sente que é altura de o fazer) abordam a associação, e com essa coragem deram o primeiro passo para deixar de ser vítimas e virem a ser sobreviventes.

Pedro – 36 anos

Contactei a Quebrar O Silêncio há quase um ano. Os meses que precederam esse primeiro pedido de ajuda foram o culminar de anos que se transformaram em décadas de dúvidas, medos e destruição. Autodestruição. E ainda assim, até ao último instante, hesitei fazê-lo, tentando arranjar uma qualquer desculpa para fugir à promessa que tinha feito a mim mesmo: deixar-me ajudar.

Não é fácil explicar o que se sente no momento em que sofremos, na pele, um abuso. Deixamos de ser nós mesmos e passamos a ser de outrem. Delineado, recortado, destruído. Por outrem. Tornamo-nos estranhos no nosso próprio corpo e passamos a viver com aquele momento, aquela pessoa no nosso dia-a-dia. Por vezes podemos ter a ilusão que os deixámos para trás, momentaneamente libertos daquelas mãos, daquele cheiro. Mas não passa de uma mera ilusão, rapidamente voltamos a ter a sua companhia, a sua presença na forma como uma outra pessoa falou, ou tocou, ou simplesmente olhou. Somos novamente rodeados, novamente enclausurados nos nossos próprios fantasmas. Não é difícil entender o que nos afasta das pessoas, o que nos magoa, o que nos mata.

E, no entanto, não é fácil explicar o que nos mantém no silêncio durante anos, largos e demasiados anos. Depois do que nos foi feito, depois do que nos foi imposto mantemo-nos invisíveis. São questões que, desde crianças, nos surgem diariamente: “Serei eu o culpado?”; “Mereci-o?”; “Acreditará alguém em mim?”; “Serei hoje menos homem por isso?” São estas questões que, por mais óbvias hoje me possam parecer, tentei dar resposta no passado. Dia após dia. Sozinho.

Mas, ao contrário dos filmes, não existem aqui heróis solitários. E é assim que surge a Quebrar O Silêncio na minha vida. Uma Associação erguida com base na confiança, na entreajuda, na confidencialidade e no empoderamento dos homens que a procuram. Porque se ao longo de quase 20 anos tentei responder a todas estas questões sozinho, a verdade é que uma das partes mais difíceis de todo este processo é convencermo-nos que temos efetivamente as respostas em nós. Que, com 8 anos de idade, não fui efetivamente culpado. Que, com 8 anos de idade, efetivamente não o mereci. E que hoje não sou menos homem por isso. Efetivamente. Com a fundamental ajuda que recebi da Quebrar O Silêncio vou, aos poucos, convencendo-me de todos aqueles efetivamentes e mais alguns. E neste último ano consegui dar respostas definitivas a várias das questões que me acompanharam durante estas décadas. Sim, alguém irá acreditar em mim. Sim, alguém irá apoiar-me. E, sim, alguém irá ajudar-me a deixar de ser um estranho de mim mesmo. Essa é uma das primeiras certezas que precisamos ter para nos permitirmos ser ajudados, pois esse é um dos passos fundamentais para que consigamos viver plenamente.

O pedido de ajuda deu-me a conhecer outros homens com histórias e processos bem distintos do meu, mas temos um ponto em comum que nos uniu e une. Sobrevivemos. Juntos. Dia após dia. Juntos.

Nota: a pedido do sobrevivente que quis assumir a sua identidade, este testemunho é assinado usando o seu nome verdadeiro.

D – 30 anos

A decisão de contactar a “Quebrar o Silêncio” em janeiro de 2017 foi definitivamente uma das mais importantes da minha vida, desde então, passei a olhar de uma forma mais positiva para mim e para a minha vida em particular, bem como para o mundo exterior em geral.

Ter frequentado o grupo de ajuda mútua permitiu que me identificasse com outros homens que passaram pelo mesmo que eu e, progressivamente ao longo das sessões, fui sentido que este “fardo” que carreguei ao longo da minha adolescência e início da vida adulta foi ficando cada vez mais leve. Posteriormente e com o início do acompanhamento psicológico, passei a desenvolver a capacidade de conhecer, controlar e modificar os meus próprios pensamentos e emoções para assim poder definir autonomamente as minhas motivações, os meus comportamentos e os meus próprios valores.

Aprendi, assim, que o evitamento não é a solução para os problemas e que é possível deixar de sentir-me tão tímido, culpado e ansioso no contacto com os outros. Agora com 30 anos posso finalmente sentir que tenho um futuro mais otimista, desafiante e feliz, ao invés de um mar de receios infundados que não me permitia ver as minhas próprias qualidades. Após este período de frequência da Associação consigo reconhecer que sou autossuficiente e que posso viver sozinho, que já não preciso tanto do álcool para me desinibir socialmente, que sou atraente fisicamente, que as pessoas gostam de estar comigo, que sou merecedor de carinho e atenção, que tenho amigos que estarão sempre ali para mim, que já consigo aproximar-me da minha família, que já consigo desinibir-me sexualmente, que já sei viver melhor com a minha própria orientação sexual, que posso apaixonar-me espontaneamente e autenticamente por outro rapaz que me faça sentir bem, que já consigo expressar melhor as minhas emoções, que já não tenho vergonha de dar a minha opinião, que sou um bom profissional, que consigo desenvolver a minha componente artística, que estou novamente apto para fazer desporto, que consigo tomar decisões a pensar primeiramente em mim e que sei gerir conflitos quando eles existirem. Posso dizer que me tornei um homem mais resiliente e despreocupado, bem como que consigo ser um amigo, namorado, filho, irmão, colega, trabalhador e cidadão mais dedicado e presente à minha própria maneira.

Escrevo este testemunho como forma de fechar este ciclo e agradecer o apoio que recebi ao longo deste processo de libertação, manifestando a minha disponibilidade para ajudar no que for preciso. Obrigado por me terem ensinado a gostar de mim e ajudado a perceber que, no dia de hoje, a experiência de abuso pelo qual eu passei já não define mais aquilo que sou.

A – 42 anos

Para mim, esta é uma altura importante para falar do que me aconteceu, do abuso e da violação por que passei. É sempre importante falar dos nossos próprios problemas. Esta é a única forma de os arrancar do baú onde os guardamos e expô-los à luz para que percam o poder que têm sobre nós. Expô-los à luz diminui a vergonha e faz-nos sentir novamente mais humanos. Foi mesmo necessário virar-me completamente do avesso, e foi aí que vi que somos capazes de chegar à raiz dos problemas que deixaram a sua marca ao longo dos anos.

Agora, quando falo sobre eventos como este, capazes de alterar vidas, posso falar com mais força, mais claridade, mais compreensão e com menos emoção. As pessoas podem ouvir-me mais claramente, como se tivesse encontrado a minha voz. Como se me tivesse encontrado.

Isto deve-se em parte ao facto de ter participado nos grupos de apoio só para homens, mas também ao meu trabalho em mim mesmo. Foi aí que consegui perceber como estes eventos tiveram impacto na minha vida e como eu agora escolho o poder que eles têm sobre mim para o resto da minha vida.

Quando fui abusado aos 12 anos, varri o acontecimento para debaixo do tapete. Restava-me continuar a ser eu mesmo. Eu nem sequer sabia o que era abuso, quanto mais o que era transformar-me numa vítima dele. Depois do que aconteceu, fiquei extremamente transtornado, zangado e confuso. Como pessoas, estamos constantemente a tentar racionalizar as coisas para as tentar compreender melhor, para tentar perceber por que é que nós fomos afectados por elas. É o chamado síndrome do “porquê eu?”.

Sou, e sempre fui, uma pessoa aberta, que fala a partir do seu coração. Por isso, as coisas nem sempre correram bem com os outros, apesar de as minhas intenções serem boas. Ainda assim, isto ajudou-me na minha luta e a ligar-me à estrutura de suporte que existe para os homens vítimas de abuso.

Pela negativa, as pessoas à minha volta vêem-me como sentimental e por vezes instável. Até já fui descrito como sendo um pouco descontrolado. Se não tivermos ninguém com quem falar sobre estes assuntos sensíveis, as nossas emoções ficam amordaçadas e nós tornamo-nos voláteis, zangados e chateados com todos os que estão à nossa volta, e com nós próprios. Se nada disto tivesse acontecido, lá no fundo continuaria a ser a mesma pessoa.

Sou uma pessoa emotiva que fala e age com boas intenções. É fácil para as pessoas presumirem que o nosso comportamento é, de certa forma, um resultado direto do que aconteceu quando não gostam de algo particular em nós. Talvez não sejam capazes de lidar com a verdade ou com a crueza dos factos. Como homem afetado pelo abuso, é preciso uma capacidade enorme para digerir o que aconteceu e encará-lo de frente, em vez de tentar encontrar as respostas na bebida.

Foi muito bom conseguir interagir apenas com homens no grupo de apoio, dado que pretendia ser capaz de me identificar com outros homens. Tem sido extremamente difícil, e os meus relacionamentos e vida pessoal sofreram em consequência disso. Quando é que já chega? Eu estava mesmo pronto para escutar e ajudar-me a mim mesmo, e fazer o que fosse preciso. Ia fazer e pronto!

Tinha dúvidas que tinham de ser desbravadas. Encontrei o apoio de que precisava e foi fantástico perceber que era capaz de falar abertamente e ser compreendido sem qualquer tipo de julgamento. Senti-me aliviado e cheio de alegria por ser capaz de pegar em mim e voltar a estar disponível para o mundo.

O meu conselho é: ouça-se a si mesmo, permita-se curar e falar a sério. Ser ouvido e compreendido tem tido um efeito muito terapêutico e calmante em mim. Fez desaparecer a pessoa constantemente ansiosa, chateada e zangada que eu era. Não estou completamente curado, mas todos os dias estou mais perto de alcançar a minha felicidade. Sei isso porque estou novamente a viver, estou grato, e sempre estive, por tudo o que sou, mas agora estou ainda mais.

Sinto-me feliz porque fiz e porque falei, porque isso era o correto para mim. A decisão de procurar ajuda tem de ser sua. Mas no final, vai ficar contente por tê-lo feito.

J – 27 anos

Eu sempre desvalorizei a minha história de abuso porque nunca achei que fosse algo muito traumático. E quando comecei ir aos grupos de apoio fui sempre muito cético porque não acreditava que o que me tinha acontecido era realmente abuso.

Quando comecei a ouvir as histórias dos outros homens e os casos de violação, quis ir-me embora porque eu não tinha sido violado, eu tinha sido “apenas” abusado sexualmente pelo meu irmão e achava que não merecia estar naquela sala. Pensava que era um intruso e que um dia iam perceber que eu não merecia estar ali junto dos outros homens.

Mas aos poucos fui vendo que, apesar das diferentes histórias, a forma como cada um sofria e as coisas por que passámos eram todas muito parecidas. As questões de vergonha e da culpa que todos sentíamos eram demasiado semelhantes para que o meu abuso não fosse um abuso real.

Foi através do grupo de apoio que comecei a compreender o que realmente me aconteceu e o impacto que isso teve na minha vida. Aos poucos, a minha postura mudou muito. Passei de “eu não mereço estar aqui porque o abuso não me afetou assim tanto” para reconhecer que o que o meu irmão me fez foi errado. Consegui ultrapassar a vergonha e a culpa que sentia, mas que nunca quis mostrar aos outros que sentia.

S – 31 anos

Fui abusado pelo meu pai quando tinha entre 4 e 6 anos de idade. Depois de tentar suicidar-me 24 anos depois, decidi que precisava de procurar a ajuda que desde sempre senti que não merecia.

Houve muita manipulação e sedução inteligente no meu abuso. Era apenas um jogo. Por isso senti que não merecia ajuda. Ser capaz de falar com homens que passaram por situações semelhantes ajudou-me a perceber que a forma como os abusadores agiram mudou de pessoa para pessoa, mas que os resultados são sempre os mesmos: um sentimento de vergonha e de culpa.

O apoio que recebi e, espero, dei de volta, ajudou-me a crescer. Deu início à viagem da recuperação. O grupo de apoio masculino deu-me fundações fortes para continuar com a minha vida de cabeça erguida.

J – 38 anos

Sou um desconhecido para vocês. Não me conhecem o rosto. Podem ou não ter passado pelo que passei. Mas estão a ler isto, pelo que julgo que vos aconteceu algo — algo com o qual se estão a debater.

Há uma expressão que diz “reconhecer o problema é meio caminho andado para o resolver”, mas isto não se aplica a nós, nem àquilo por que passámos. Não basta divulgar as nossas verdades e contar as nossas histórias. Isto é o princípio da vossa viagem, a viagem até vós próprios. É uma viagem de cura e aceitação, uma que exigirá muita força.

Quando contei a alguém pela primeira vez o que me aconteceu, tinham passado 18 anos depois de o meu irmão me ter violado pela última vez. Mas a cura começara três anos antes. Eu não entendia, não sabia, tinha negado a verdade a mim mesmo. Mas os acontecimentos voltaram para me assombrar e não podia ignorá-los mais. Tinha de lidar com eles. Tinha de enfrentar o que me aconteceu. Tinha de o admitir a mim próprio em primeiro lugar, mas as palavras não vinham e os sentimentos não se manifestavam. Estava entorpecido.

Depois de pedir ajuda, depois de participar nos grupos de apoio e de fazer psicoterapia, percebi que não estava sozinho. Você não está sozinho. Você está prestes a embarcar numa corajosa viagem de altos e baixos, e tal como eu consegui, você também conseguirá chegar a bom porto. Conseguiu chegar até aqui. E como um amigo me disse uma vez, “és mais forte do que pensas.” Você também é.

M – 35 anos

Nunca acreditei que fosse possível ficar bem. Não depois do que me aconteceu e de passar uma vida inteira e reviver o abuso porque as memórias e os pensamentos não paravam. Acordava a reviver o abuso e deitava-me à noite com as mesmas memórias. Não os conseguia desligar.

Quando fui para o grupo de apoio, o alívio foi imediato. Senti um peso a sair de cima dos ombros. As histórias que ouvia eram tão diferentes da minha, mas ao mesmo eram iguais ao que passei. As coisas que ouvia, que os outros homens diziam e que eu não conseguia nunca dizer, pareciam ser arrancadas directamente do meu interior.

Muitas vezes pensei que um dia queria ser como aqueles homens que falavam abertamente da sua experiência, sem rodeios e diretamente, mas no fundo pensava que era só um desejo. Um desejo impossível de alcançar.

Até que um dia olhei para trás e sem que me apercebesse vi que eu era um desses homens.

B – 44 anos

O meu escape foram sempre as drogas e a bebida. Comecei a consumir drogas muito cedo; era a única forma de conseguir fugir da realidade. Eu não queria saber que tinha sido violado mais do que uma vez e queria arrancar isso da minha cabeça. Quando fumava, eu sentia-me bem, sentia-me ausente e longe de tudo. Nada me afetava, eu estava imune de tudo e então comecei a fumar mais vezes e a aumentar a dose.

Foi preciso chegar a um ponto de desespero para perceber que as drogas não me serviam mais e que não havia forma de fugir mais. Cheguei a um ponto em que não tinha controlo da minha vida, eu não tinha acabado os estudos, estava desempregado e não tinha nenhuma relação que fosse boa. Bati no fundo da minha vida e pensei que não havia volta a dar sem ser acabar com tudo.

Felizmente, antes de cometer uma asneira pedi ajuda e a minha vida começou a mudar. Enfrentei os meus medos de frente, tive de me obrigar a enfrentar a realidade e a verdade do que me aconteceu. Não tinha culpa de ter sido violado, eu não era o culpado por isso. Houve uma altura da minha vida em que tudo era negro e eu não via solução para os meus problemas. Mas hoje isso faz tudo parte do passado, parece que aconteceu tudo numa vida diferente em que eu via as drogas como solução. Hoje já não consumo mais e sei que os grupos de apoio foram essenciais para a minha recuperação.