Testemunhos


Estes testemunhos são de homens sobreviventes que hoje estão em controlo da sua vida. Passaram por momentos de dúvida, incerteza e de confusão extrema. No entanto, tiveram apoio e ultrapassaram os vários obstáculos consequentes de uma experiência traumática de violência sexual.

Esperamos que um dia também possa partilhar o seu testemunho.

 

Miguel – 50 anos

Chamo-me Miguel, tenho 50 anos e sou um sobrevivente.
Este é o meu verdadeiro nome. E com o meu verdadeiro nome posso falar da minha história para quem quiser ouvir. Isto que acabei de escrever era algo impensável há cerca de um ano quando iniciei a minha viagem em direcção à paz.
Num dia de desespero e de muita angústia, percebendo que não conseguia viver mais com fardo que carreguei toda a minha vida, e já depois de ter tido conhecimento da Quebrar o Silêncio, escrevi um pedido de ajuda.
Esse pedido ficou guardado nos rascunhos durante algum tempo. Tinha perdido a coragem… Outra vez. Mas a dor continuava… E no dia 5 de Novembro de 2017, carreguei na tecla enter… Tinha enviado… E agora!? O que raio acabaste de fazer?, pensei eu. Passaste uma vida inteira a esconder isso, a não falar disso com ninguém, e agora envias uma mensagem a desconhecidos!?
Para piorar a situação o Ângelo respondeu-me logo no dia 6. Devo ter ficado uma boa meia-hora a olhar para a mensagem com o cérebro totalmente bloqueado. Ainda assim resisti, com alguns subterfúgios que ia arranjando, só tive a primeira sessão a 5 de Dezembro. Mas deixem-me falar um pouco de como vivi estes 50 anos.
O primeiro abuso deu-se quando eu era muito novo, tão novo que não me lembro da idade, mas estava naquela idade em que as crianças têm que se deitar cedo. Estava numa pequena aldeia, onde havia por essa altura uma festa. Quando lançaram os foguetes eu comecei a chorar com medo e assustado. Por isso um primo meu, na altura adolescente, foi deitar-se comigo, segundo ele para eu não ter medo. Passado poucos minutos fui completamente maniatado por ele, a partir daí só sentia dor que contrastava com a voz calma dele a dizer que não fazia mal, que estava tudo bem. Se era normal porque é que doía ao ponto de me fazer chorar. Não me lembro quantos dias permaneci com os meus pais na aldeia. Mas a partir daí, ele e outro primo meu todos os dias me faziam a mesma coisa. Por fim lá foram dizendo que se contasse a alguém, eles diziam que tinha sido eu a pedir, e que os meus pais iam ficar muito zangados comigo. Devo dizer que com isto fiquei aterrorizado pois os meus pais sempre fizeram questão de dizer que eu era um menino muito parvinho, pouco espevitado.
Com isto o meu silêncio ficou garantido.
Pouco tempo depois um desses primos foi viver a convite dos meus pais, para nossa casa. Escusado será dizer o que veio a acontecer todas as noites. Com a agravante que quando o outro primo nos ia visitar eles revezavam-se. Aí a chantagem mudou, diziam que contariam a todos os meus amigos se eu não deixasse.
Com o passar do tempo, assim que se aproximava a noite o meu medo era tal, que chegava a desmaiar. Tentei contar aos meus pais, mas assim que começava a dizer que o meu primo me fazia mal, apanhava ainda por cima, pois era impossível tão boa pessoa fazer-me mal.
Passado um tempo fui passar um natal a casa de uma outra parte da família, onde vivia uma prima que eu adorava. Acontece que numa das noites ela foi até à minha cama e também ela abusou de mim. Foi nessa altura que comecei a acreditar que afinal todos tinham razão, a culpa não era deles. Era eu que tinha algum defeito e que era normal que isso me acontecesse.
Aos meus doze anos esse meu primo saiu de casa dos meus pais. Altura em que os meus pais me mandaram trabalhar para uma panificadora onde conheciam uma pessoa. Como se sabe nesse ramo por altura do Natal há sempre muito trabalho. O que fez com que tivesse que passar lá algumas noites, e ia descansando aos poucos. Numa dessas noites no quarto onde eu ia descansar, fui novamente abusado por duas mulheres já adultas, o que veio consolidar o que eu pensava de mim. Eu não prestava.
A partir desse momento entrei numa espiral de auto destruição. Comecei a consumir drogas muito cedo, não foram raras as vezes em que dei entrada em hospitais com overdose ou coma alcoólico. Saí de casa muito cedo, e comecei a vaguear por todo o lado. Prometi a mim mesmo que mais ninguém me tocaria, aprendi a lutar. Pensado que, com isto, o problema estava resolvido… Não estava. Não conseguia viver comigo mesmo, só serviu para magoar quem me rodeava. Pois achava que se atacasse logo já não era magoado. Mas continuava em modo auto-destrutivo. Nunca fiz um único amigo. Não tendo coragem para me suicidar, um dia desisti de mim próprio e fui viver para a rua. Nessa altura trabalhava numa grande empresa, mas no fim do dia não conseguia voltar para casa. Tomava banho com outros companheiros de rua em balneários públicos, e lá ia eu trabalhar a maior parte das vezes sob efeito de qualquer estupefaciente. Muita gente já reparava que havia algo de errado, mas eu tinha criado uma personagem, e era bom em representá-la. Apenas queria que algo de mal me acontecesse e me levasse à morte. O tempo passou, todas as pessoas com quem me envolvia eram doentias, o sexo com elas causava-me asco.
Só me apaixonei uma vez, mas a dada altura essa pessoa deixou-me. Normal. Voltei a encontrá-la quinze anos depois. Casámos e tivemos uma filha. Mas ainda assim eu não estava a ser bom para elas, pois o meu personagem era uma pessoa má. Até que quatro anos depois tomei conhecimento da Quebrar o Silêncio. A abordagem já vocês sabem como foi.
A primeira pessoa que me recebeu na Quebrar o Silêncio foi o Ângelo, se me perguntarem hoje quais foram as palavras dele, não me lembro. Sei que passado algum tempo disse que eu ia começar a ter consultas de psicologia, e chamou a Dra. Cláudia à sala. Quando ela entrou deve ter acontecido alguma coisa com a minha vista, pois só vi dois vultos, não distinguia feições.
Quando acontece a primeira sessão, a Dra. Cláudia foi esperar-me à porta para nos dirigirmos à sala, nesse momento senti que não era eu que ia com ela, mas sim aquele menino tanta vez violentado e indefeso.
Digo-vos que a partir desse dia a minha vida mudou como eu nunca imaginei ser possível. A Dra. Cláudia, qual arqueóloga, foi quebrando com muito cuidado a armadura de pedra que eu já achava ser perpétua. O seu trabalho tremendo fez com que me sentisse cada vez mais à vontade e, durante esse tempo comecei, a descobrir que o mundo tinha cor, não era só cinzento e negro, que havia pessoas boas, e que no fundo eu era uma delas. Hoje acredito sinceramente nisso. Não tive qualquer culpa do que me aconteceu, fui uma vítima. Mas agora sei que mereço viver. Até porque descobri que estou casado com uma pessoa fantástica que precisa de mim do seu lado, e que me deu uma filha linda que merece um pai em paz. Não me queria alongar tanto, mas acreditem que isto é só um resumo.
Não sei quantas vítimas vão ler este texto, mas se ele servir para uma, nem que seja só uma a querer encontrar a paz, terá valido a pena escrever estas linhas. Na Quebrar o Silêncio vão encontrar respeito, apoio, alguém que vos entende, pessoas que já passaram pelo mesmo. Em Suma NÃO ESTÁS SOZINHO. Agradeço para sempre a todas as pessoas da associação particularmente à Dra. Cláudia que através das suas palavras me fez voltar à vida.
Estarei disponível naquilo que for possível para ajudar.
Bem haja a todos.
Miguel

José – 46 anos

EU SOU UM SOBREVIVENTE!
Peço desculpa por começar com caps lock, negrito, itálico e sublinhado, o meu testemunho. Esta forma como iniciei, foi a maneira que encontrei para exprimir o orgulho e alegria com que hoje o digo.

O meu nome é José e tenho 46 anos de idade e quase os mesmos de sofrimento silencioso. O facto de o meu nome constar, não se trata de vaidade e de querer aparecer. Mas sim, pelo facto de ter perdido o medo de ter sido vítima de abuso sexual. Algo impensável para mim no início do ano de 2018. Nasci na “maternidade” Associação Quebrar o Silêncio, pelas mãos dos parteiros Ângelo e Cláudia. O que acabei de escrever, representa o que eu achava de mim e da minha vida, para sentir que voltei a ter uma nova vida.

Nunca tive uma infância como a maioria das pessoas. Aos meus seis anos de idade, já tinha bastantes responsabilidades de um adulto. E muito antes dessa idade, já era usado como objeto sexual de alguns homens adultos. Penso que qualquer pessoa com um pouco de sentimentos, poderá imaginar o que daí pode advir.

Acreditem, o corpo violado ao nível físico, para mim, nada é e nada significa hoje. O que dói e o que ficou em trapilhos, foi a alma. Não saber o que é infância, não poder confiar em ninguém, com muita gente ao redor mas só no mundo. Certamente, uma criança que tenha de aprender as coisas da vida da pior maneira, irá ter grandes problemas e dificuldades ao longo da vida. É uma condenação perpétua. O que fiz para merecer isso? Simplesmente existir!

Os anos foram passando, a minha forma de agir com o mundo, foi sempre como se estivesse em estado de guerra com tudo e com todos. Isso, como é de imaginar, traz muitos outros problemas. Poderia enumerar muitas coisas do ser horrível que me tornei. Julgo, no entanto, que não vale a pena descrever o que já não existe.

Foi neste estado que cheguei às mãos dos parteiros acima referidos.

Nunca antes, tinha falado deste assunto com estranhos, só com a minha esposa. Não foi fácil para mim, chegar perto de outro homem e assumir que a minha masculinidade já não era pura. Mas o Ângelo, com a sua forma de ser e estar, não me fez sentir como se eu fosse um “extraterrestre”. Aceitou-me de imediato para que eu fosse acompanhado por um psicólogo da associação. Quando ele me diz que, o psicólogo é uma psicóloga, foi como um balde de água fria. Se já não foi fácil expor-me a um homem, era inconcebível para mim expor-me para uma mulher. E depois, o que sabe uma mulher sobre as dores de um homem sem nunca o ter sido? Foi assim que pensei e disse. Não muito convencido, e para dar uma oportunidade a mim mesmo de poder dizer “eu tinha razão”, lá aceitei o que seria a primeira e última consulta com a Drª Cláudia.

Não sei explicar, também não é importante, só sei que ao fim de alguns minutos, já não via uma mulher à minha frente. Ali estava uma excelente profissional que, afinal sabe bem o que ali está a fazer e que sabe mais das dores e necessidades de um homem ferido psicologicamente, do que eu mesmo sei de mim.

Chorei, alterei-me, ri e voltei a chorar. Os meses foram passando… 1, 2, 3,… comecei a sentir-me bem melhor, ainda que, estivesse longe de estar realmente bem. Deixei de contar os meses.

Foram vários meses que passaram até obter alta. Uma coisa que disse à Drª Cláudia na minha última consulta: “…tenho pena de só agora estar a descobrir coisas novas na vida e ter bem menos anos para tirar proveito.” Penso que isto que disse, mostra bem o tão bem e esperançoso me sinto.

Lamentavelmente, não nasci de novo, o mundo está longe de ser perfeito tal como eu. Sei que vou chorar ainda ao longo da vida. Mas graças a esta equipa da Quebrar o Silêncio, hoje, tenho a certeza, que depois do chorar, vou rir, rir muito e ser feliz. Hoje, sou capaz de traçar objectivos, desviar-me do que me faz mal e procurar a beleza do mundo, a minha beleza. Não há dinheiro que pague o que Eles fizeram por mim. Até porque, o amor não tem preço.

EU SOBREVIVI E AGORA TENHO UMA NOVA VIDA!

Sempre grato,
José 

A. – 56 anos

Antes de ter conhecimento da associação Quebrar o Silêncio eu sentia-me a pior pessoa ao cimo da terra. Não gostava de mim, andava perdido por tudo o que se passou na minha vida em criança como na adolescência, por ter sido violado várias vezes com ameaças e de se terem aproveitado da minha ingenuidade. Eu estava com uma revolta dentro de mim que só me apetecia matar-me, entrei nas drogas para esquecer e estava com uma revolta dentro de mim que nem ligava para a vida que estava a levar.

Certo dia tive conhecimento da associação Quebrar o Silêncio e tive curiosidade em saber como era possível ser ajudado. No começo foi por telefone e conforme as conversas minhas com o técnico da associação deixei de fumar e de tomar drogas, também já estava a tirar um curso para ver se encontrava trabalho. Ao fim de um tempo fui convocado para entrar nas sessões de grupo e a cada mês que passava sentia-me outra pessoa, também com a ajuda da psicóloga da associação.

Hoje sinto-me outra pessoa, mais alegre e sei gerir o meu tempo, como organizar o tempo de lazer. Um muito obrigado, só vos tenho a agradecer.

D. – 32 anos

Desde os meus 19/20 anos que a minha vida tem sido sair do armário, de forma consciente e activa. Isto é, conhecer-me, assumir-me, e aceitar-me. É um processo constante, e por vezes muito cansativo, obriga-nos a lidar com as coisas que nos incomodam, muitas vezes aquelas que não gostamos ou não gostaríamos de reconhecer em nós, como as nossas contradições, as nossas falhas, e aquelas características que dão muito trabalho a mudar. Obriga também a reconhecer as nossas fraquezas, ou melhor dizendo, as nossas vulnerabilidades. Sair do armário é lidar com isto tudo, de frente, é sair da penumbra para a luz.
Há já 10 anos que estou neste processo, e o ano passado, quando senti que o abuso era uma das questões que tinha que enfrentar e resolver (livrar-me desta bagagem pesada), deparei-me com a Quebrar o Silêncio. Creio que uma partilha no Facebook foi o suficiente para eu encontrar a associação. Li alguns testemunhos, mas um em particular foi decisivo, era o que falava sobre a sua experiência de abuso não estar “à altura”, ao mesmo nível, ou ser digna/passível de ser considerada abuso. Foi isso que sempre que tentei procurar ajuda, mesmo sem saber como, ou com que palavras, ou sequer sem saber recorrer à palavra abuso, foi sempre isso que me fizeram sentir. Então o problema só podia ser meu, e consequentemente a culpa do que eu sentia só podia ser minha.

Depois veio a iniciativa, entrar em contacto. Trocar emails, o primeiro que escrevi levou quase 3 meses a ser escrito, tamanho era o desconforto e a dificuldade em relembrar e arranjar vocabulário para descrever aquilo que eu sempre tive tanta dificuldade em compreender.
Depois veio a primeira resposta da Quebrar o Silêncio. E automaticamente criou-se um espaço seguro, mesmo que virtual. Li o email duas vezes, em dias diferentes. Naquele email tive mais apoio, legitimação das minhas emoções e informação sobre o que se passou do que todos os anos até então.
Desde então foi ficando mais fácil, ou menos difícil…
As sessões realizadas com o grupo de ajuda mútua foram (quase) sempre pesadas. Mas ao fim de alguns meses, felizmente, aquele lugar seguro começou a ficar menos pesado. Ao fim de alguns meses comecei a deixar de ser de vítima e passei a ser sobrevivente. Não pelo mediador o dizer em todas as sessões, mas porque finalmente comecei a compreender o que se passou, porque finalmente tinha vocabulário para explicar, e porque, independentemente das experiências de cada um, aquele espaço seguro mostrou-me que quase todos sentimos o mesmo, as mesmas coisas, as mesmas emoções, os mesmos medos, mesmo vindo de sítios diferentes. O respeito e o apoio partilhado entre todos foi verdadeiramente transformador.

No meio deste processo foi possível iniciar também com a Quebrar o Silêncio o acompanhamento psicológico individual. Neste momento aquele exercício de introspecção semanal ganhou um novo fôlego, obrigando-me a processar, estruturar e verbalizar as coisas que me passavam pela cabeça, como os medos, as dúvidas, as sabotagens, mas também as conquistas.
O acompanhamento psicológico individual foi um confronto muito directo comigo mesmo, e que me obrigou a trabalhar para construir a pessoa mais assertiva que sou hoje.

Um pouco como o nosso corpo, temos uma estrutura óssea que nos suporta, mas ela só funciona com os músculos. Sinto que o grupo de ajuda mútua construiu uma estrutura, mas o acompanhamento psicológico individual permitiu trabalhar uma musculatura que me permitisse caminhar, e seguir em frente.

Quero deixar o meu agradecimento à Quebrar o Silêncio, à pessoa que organiza o grupo de ajuda mútua, e que foi o meu primeiro contacto nesta nova jornada, à profissional incrível com quem realizei o acompanhamento psicológico individual, e a todos os homens, corajosos, que me permitiram crescer um pouco mais, mais livre para ser eu próprio.
O mais incrível deste processo é que foi mergulhando no medo, no desconhecido e na dor de lidar com o abuso, que me libertei do peso que tinha na minha vida, de todas as formas directas e indirectas que todos sabemos tão bem, infelizmente. Ele não desapareceu, mas ao sair da sombra permitiu-me compreender melhor a sua dimensão, e o seu impacto na minha vida. A liberdade é sentir que não sou dominado de forma clara ou imperceptível pelos abusos. E poder agir com esse conhecimento é libertador e capacitador, pois permite viver a vida de forma mais clara, conhecer-me melhor, conhecer melhor os meus limites, respeitar-me mais e exigir mais respeito.

A Quebrar o silêncio está de parabéns pelo contributo que dá à vida de todos os homens que sofreram alguma situação de abuso, e também todos os homens, que quando encontram o tempo de procurar ajuda (vamos sempre a tempo de procurar ajuda, e a melhor altura para o fazer é quando a pessoa sente que é altura de o fazer) abordam a associação, e com essa coragem deram o primeiro passo para deixar de ser vítimas e virem a ser sobreviventes.

Pedro – 36 anos

Contactei a Quebrar O Silêncio há quase um ano. Os meses que precederam esse primeiro pedido de ajuda foram o culminar de anos que se transformaram em décadas de dúvidas, medos e destruição. Autodestruição. E ainda assim, até ao último instante, hesitei fazê-lo, tentando arranjar uma qualquer desculpa para fugir à promessa que tinha feito a mim mesmo: deixar-me ajudar.

Não é fácil explicar o que se sente no momento em que sofremos, na pele, um abuso. Deixamos de ser nós mesmos e passamos a ser de outrem. Delineado, recortado, destruído. Por outrem. Tornamo-nos estranhos no nosso próprio corpo e passamos a viver com aquele momento, aquela pessoa no nosso dia-a-dia. Por vezes podemos ter a ilusão que os deixámos para trás, momentaneamente libertos daquelas mãos, daquele cheiro. Mas não passa de uma mera ilusão, rapidamente voltamos a ter a sua companhia, a sua presença na forma como uma outra pessoa falou, ou tocou, ou simplesmente olhou. Somos novamente rodeados, novamente enclausurados nos nossos próprios fantasmas. Não é difícil entender o que nos afasta das pessoas, o que nos magoa, o que nos mata.

E, no entanto, não é fácil explicar o que nos mantém no silêncio durante anos, largos e demasiados anos. Depois do que nos foi feito, depois do que nos foi imposto mantemo-nos invisíveis. São questões que, desde crianças, nos surgem diariamente: “Serei eu o culpado?”; “Mereci-o?”; “Acreditará alguém em mim?”; “Serei hoje menos homem por isso?” São estas questões que, por mais óbvias hoje me possam parecer, tentei dar resposta no passado. Dia após dia. Sozinho.

Mas, ao contrário dos filmes, não existem aqui heróis solitários. E é assim que surge a Quebrar O Silêncio na minha vida. Uma Associação erguida com base na confiança, na entreajuda, na confidencialidade e no empoderamento dos homens que a procuram. Porque se ao longo de quase 20 anos tentei responder a todas estas questões sozinho, a verdade é que uma das partes mais difíceis de todo este processo é convencermo-nos que temos efetivamente as respostas em nós. Que, com 8 anos de idade, não fui efetivamente culpado. Que, com 8 anos de idade, efetivamente não o mereci. E que hoje não sou menos homem por isso. Efetivamente. Com a fundamental ajuda que recebi da Quebrar O Silêncio vou, aos poucos, convencendo-me de todos aqueles efetivamentes e mais alguns. E neste último ano consegui dar respostas definitivas a várias das questões que me acompanharam durante estas décadas. Sim, alguém irá acreditar em mim. Sim, alguém irá apoiar-me. E, sim, alguém irá ajudar-me a deixar de ser um estranho de mim mesmo. Essa é uma das primeiras certezas que precisamos ter para nos permitirmos ser ajudados, pois esse é um dos passos fundamentais para que consigamos viver plenamente.

O pedido de ajuda deu-me a conhecer outros homens com histórias e processos bem distintos do meu, mas temos um ponto em comum que nos uniu e une. Sobrevivemos. Juntos. Dia após dia. Juntos.

Nota: a pedido do sobrevivente que quis assumir a sua identidade, este testemunho é assinado usando o seu nome verdadeiro.

D – 30 anos

A decisão de contactar a “Quebrar o Silêncio” em janeiro de 2017 foi definitivamente uma das mais importantes da minha vida, desde então, passei a olhar de uma forma mais positiva para mim e para a minha vida em particular, bem como para o mundo exterior em geral.

Ter frequentado o grupo de ajuda mútua permitiu que me identificasse com outros homens que passaram pelo mesmo que eu e, progressivamente ao longo das sessões, fui sentido que este “fardo” que carreguei ao longo da minha adolescência e início da vida adulta foi ficando cada vez mais leve. Posteriormente e com o início do acompanhamento psicológico, passei a desenvolver a capacidade de conhecer, controlar e modificar os meus próprios pensamentos e emoções para assim poder definir autonomamente as minhas motivações, os meus comportamentos e os meus próprios valores.

Aprendi, assim, que o evitamento não é a solução para os problemas e que é possível deixar de sentir-me tão tímido, culpado e ansioso no contacto com os outros. Agora com 30 anos posso finalmente sentir que tenho um futuro mais otimista, desafiante e feliz, ao invés de um mar de receios infundados que não me permitia ver as minhas próprias qualidades. Após este período de frequência da Associação consigo reconhecer que sou autossuficiente e que posso viver sozinho, que já não preciso tanto do álcool para me desinibir socialmente, que sou atraente fisicamente, que as pessoas gostam de estar comigo, que sou merecedor de carinho e atenção, que tenho amigos que estarão sempre ali para mim, que já consigo aproximar-me da minha família, que já consigo desinibir-me sexualmente, que já sei viver melhor com a minha própria orientação sexual, que posso apaixonar-me espontaneamente e autenticamente por outro rapaz que me faça sentir bem, que já consigo expressar melhor as minhas emoções, que já não tenho vergonha de dar a minha opinião, que sou um bom profissional, que consigo desenvolver a minha componente artística, que estou novamente apto para fazer desporto, que consigo tomar decisões a pensar primeiramente em mim e que sei gerir conflitos quando eles existirem. Posso dizer que me tornei um homem mais resiliente e despreocupado, bem como que consigo ser um amigo, namorado, filho, irmão, colega, trabalhador e cidadão mais dedicado e presente à minha própria maneira.

Escrevo este testemunho como forma de fechar este ciclo e agradecer o apoio que recebi ao longo deste processo de libertação, manifestando a minha disponibilidade para ajudar no que for preciso. Obrigado por me terem ensinado a gostar de mim e ajudado a perceber que, no dia de hoje, a experiência de abuso pelo qual eu passei já não define mais aquilo que sou.

A – 42 anos

Para mim, esta é uma altura importante para falar do que me aconteceu, do abuso e da violação por que passei. É sempre importante falar dos nossos próprios problemas. Esta é a única forma de os arrancar do baú onde os guardamos e expô-los à luz para que percam o poder que têm sobre nós. Expô-los à luz diminui a vergonha e faz-nos sentir novamente mais humanos. Foi mesmo necessário virar-me completamente do avesso, e foi aí que vi que somos capazes de chegar à raiz dos problemas que deixaram a sua marca ao longo dos anos.

Agora, quando falo sobre eventos como este, capazes de alterar vidas, posso falar com mais força, mais claridade, mais compreensão e com menos emoção. As pessoas podem ouvir-me mais claramente, como se tivesse encontrado a minha voz. Como se me tivesse encontrado.

Isto deve-se em parte ao facto de ter participado nos grupos de apoio só para homens, mas também ao meu trabalho em mim mesmo. Foi aí que consegui perceber como estes eventos tiveram impacto na minha vida e como eu agora escolho o poder que eles têm sobre mim para o resto da minha vida.

Quando fui abusado aos 12 anos, varri o acontecimento para debaixo do tapete. Restava-me continuar a ser eu mesmo. Eu nem sequer sabia o que era abuso, quanto mais o que era transformar-me numa vítima dele. Depois do que aconteceu, fiquei extremamente transtornado, zangado e confuso. Como pessoas, estamos constantemente a tentar racionalizar as coisas para as tentar compreender melhor, para tentar perceber por que é que nós fomos afectados por elas. É o chamado síndrome do “porquê eu?”.

Sou, e sempre fui, uma pessoa aberta, que fala a partir do seu coração. Por isso, as coisas nem sempre correram bem com os outros, apesar de as minhas intenções serem boas. Ainda assim, isto ajudou-me na minha luta e a ligar-me à estrutura de suporte que existe para os homens vítimas de abuso.

Pela negativa, as pessoas à minha volta vêem-me como sentimental e por vezes instável. Até já fui descrito como sendo um pouco descontrolado. Se não tivermos ninguém com quem falar sobre estes assuntos sensíveis, as nossas emoções ficam amordaçadas e nós tornamo-nos voláteis, zangados e chateados com todos os que estão à nossa volta, e com nós próprios. Se nada disto tivesse acontecido, lá no fundo continuaria a ser a mesma pessoa.

Sou uma pessoa emotiva que fala e age com boas intenções. É fácil para as pessoas presumirem que o nosso comportamento é, de certa forma, um resultado direto do que aconteceu quando não gostam de algo particular em nós. Talvez não sejam capazes de lidar com a verdade ou com a crueza dos factos. Como homem afetado pelo abuso, é preciso uma capacidade enorme para digerir o que aconteceu e encará-lo de frente, em vez de tentar encontrar as respostas na bebida.

Foi muito bom conseguir interagir apenas com homens no grupo de apoio, dado que pretendia ser capaz de me identificar com outros homens. Tem sido extremamente difícil, e os meus relacionamentos e vida pessoal sofreram em consequência disso. Quando é que já chega? Eu estava mesmo pronto para escutar e ajudar-me a mim mesmo, e fazer o que fosse preciso. Ia fazer e pronto!

Tinha dúvidas que tinham de ser desbravadas. Encontrei o apoio de que precisava e foi fantástico perceber que era capaz de falar abertamente e ser compreendido sem qualquer tipo de julgamento. Senti-me aliviado e cheio de alegria por ser capaz de pegar em mim e voltar a estar disponível para o mundo.

O meu conselho é: ouça-se a si mesmo, permita-se curar e falar a sério. Ser ouvido e compreendido tem tido um efeito muito terapêutico e calmante em mim. Fez desaparecer a pessoa constantemente ansiosa, chateada e zangada que eu era. Não estou completamente curado, mas todos os dias estou mais perto de alcançar a minha felicidade. Sei isso porque estou novamente a viver, estou grato, e sempre estive, por tudo o que sou, mas agora estou ainda mais.

Sinto-me feliz porque fiz e porque falei, porque isso era o correto para mim. A decisão de procurar ajuda tem de ser sua. Mas no final, vai ficar contente por tê-lo feito.

J – 27 anos

Eu sempre desvalorizei a minha história de abuso porque nunca achei que fosse algo muito traumático. E quando comecei ir aos grupos de apoio fui sempre muito cético porque não acreditava que o que me tinha acontecido era realmente abuso.

Quando comecei a ouvir as histórias dos outros homens e os casos de violação, quis ir-me embora porque eu não tinha sido violado, eu tinha sido “apenas” abusado sexualmente pelo meu irmão e achava que não merecia estar naquela sala. Pensava que era um intruso e que um dia iam perceber que eu não merecia estar ali junto dos outros homens.

Mas aos poucos fui vendo que, apesar das diferentes histórias, a forma como cada um sofria e as coisas por que passámos eram todas muito parecidas. As questões de vergonha e da culpa que todos sentíamos eram demasiado semelhantes para que o meu abuso não fosse um abuso real.

Foi através do grupo de apoio que comecei a compreender o que realmente me aconteceu e o impacto que isso teve na minha vida. Aos poucos, a minha postura mudou muito. Passei de “eu não mereço estar aqui porque o abuso não me afetou assim tanto” para reconhecer que o que o meu irmão me fez foi errado. Consegui ultrapassar a vergonha e a culpa que sentia, mas que nunca quis mostrar aos outros que sentia.

S – 31 anos

Fui abusado pelo meu pai quando tinha entre 4 e 6 anos de idade. Depois de tentar suicidar-me 24 anos depois, decidi que precisava de procurar a ajuda que desde sempre senti que não merecia.

Houve muita manipulação e sedução inteligente no meu abuso. Era apenas um jogo. Por isso senti que não merecia ajuda. Ser capaz de falar com homens que passaram por situações semelhantes ajudou-me a perceber que a forma como os abusadores agiram mudou de pessoa para pessoa, mas que os resultados são sempre os mesmos: um sentimento de vergonha e de culpa.

O apoio que recebi e, espero, dei de volta, ajudou-me a crescer. Deu início à viagem da recuperação. O grupo de apoio masculino deu-me fundações fortes para continuar com a minha vida de cabeça erguida.

J – 38 anos

Sou um desconhecido para vocês. Não me conhecem o rosto. Podem ou não ter passado pelo que passei. Mas estão a ler isto, pelo que julgo que vos aconteceu algo — algo com o qual se estão a debater.

Há uma expressão que diz “reconhecer o problema é meio caminho andado para o resolver”, mas isto não se aplica a nós, nem àquilo por que passámos. Não basta divulgar as nossas verdades e contar as nossas histórias. Isto é o princípio da vossa viagem, a viagem até vós próprios. É uma viagem de cura e aceitação, uma que exigirá muita força.

Quando contei a alguém pela primeira vez o que me aconteceu, tinham passado 18 anos depois de o meu irmão me ter violado pela última vez. Mas a cura começara três anos antes. Eu não entendia, não sabia, tinha negado a verdade a mim mesmo. Mas os acontecimentos voltaram para me assombrar e não podia ignorá-los mais. Tinha de lidar com eles. Tinha de enfrentar o que me aconteceu. Tinha de o admitir a mim próprio em primeiro lugar, mas as palavras não vinham e os sentimentos não se manifestavam. Estava entorpecido.

Depois de pedir ajuda, depois de participar nos grupos de apoio e de fazer psicoterapia, percebi que não estava sozinho. Você não está sozinho. Você está prestes a embarcar numa corajosa viagem de altos e baixos, e tal como eu consegui, você também conseguirá chegar a bom porto. Conseguiu chegar até aqui. E como um amigo me disse uma vez, “és mais forte do que pensas.” Você também é.

M – 35 anos

Nunca acreditei que fosse possível ficar bem. Não depois do que me aconteceu e de passar uma vida inteira e reviver o abuso porque as memórias e os pensamentos não paravam. Acordava a reviver o abuso e deitava-me à noite com as mesmas memórias. Não os conseguia desligar.

Quando fui para o grupo de apoio, o alívio foi imediato. Senti um peso a sair de cima dos ombros. As histórias que ouvia eram tão diferentes da minha, mas ao mesmo eram iguais ao que passei. As coisas que ouvia, que os outros homens diziam e que eu não conseguia nunca dizer, pareciam ser arrancadas directamente do meu interior.

Muitas vezes pensei que um dia queria ser como aqueles homens que falavam abertamente da sua experiência, sem rodeios e diretamente, mas no fundo pensava que era só um desejo. Um desejo impossível de alcançar.

Até que um dia olhei para trás e sem que me apercebesse vi que eu era um desses homens.

B – 44 anos

O meu escape foram sempre as drogas e a bebida. Comecei a consumir drogas muito cedo; era a única forma de conseguir fugir da realidade. Eu não queria saber que tinha sido violado mais do que uma vez e queria arrancar isso da minha cabeça. Quando fumava, eu sentia-me bem, sentia-me ausente e longe de tudo. Nada me afetava, eu estava imune de tudo e então comecei a fumar mais vezes e a aumentar a dose.

Foi preciso chegar a um ponto de desespero para perceber que as drogas não me serviam mais e que não havia forma de fugir mais. Cheguei a um ponto em que não tinha controlo da minha vida, eu não tinha acabado os estudos, estava desempregado e não tinha nenhuma relação que fosse boa. Bati no fundo da minha vida e pensei que não havia volta a dar sem ser acabar com tudo.

Felizmente, antes de cometer uma asneira pedi ajuda e a minha vida começou a mudar. Enfrentei os meus medos de frente, tive de me obrigar a enfrentar a realidade e a verdade do que me aconteceu. Não tinha culpa de ter sido violado, eu não era o culpado por isso. Houve uma altura da minha vida em que tudo era negro e eu não via solução para os meus problemas. Mas hoje isso faz tudo parte do passado, parece que aconteceu tudo numa vida diferente em que eu via as drogas como solução. Hoje já não consumo mais e sei que os grupos de apoio foram essenciais para a minha recuperação.