Testemunhos


Estes testemunhos são de sobreviventes homens e que hoje estão em controlo da sua vida. Passaram por momentos de dúvida, incerteza e de confusão extrema. No entanto, tiveram apoio e ultrapassaram os vários obstáculos consequentes de uma experiência traumática de abuso sexual.

Esperamos que um dia também possa partilhar o seu testemunho.

 

A – 42 anos

Para mim, esta é uma altura importante para falar do que me aconteceu, do abuso e da violação que eu passei. É sempre importante falar dos nossos próprios problemas, esta é a única forma de os arrancar do baú onde os guardamos e expô-los à luz de modo a que percam o poder que têm sobre nós. Expô-los à luz diminui a vergonha e faz-nos sentir novamente mais humanos. Foi mesmo necessário virar-me completamente do avesso, e foi aí que vi que somos capazes de chegar à raiz dos problemas que deixaram a sua marca ao longo dos anos.

Agora, quando falo sobre eventos como este capazes de alterar vidas, posso falar com mais força, com menos emoção e mais claridade, mais compreensão; as pessoas podem ouvir-me mais claramente, como se tivesse encontrado a minha voz. Como se ME tivesse encontrado.

Isto deve-se em parte porque participei nos grupos de apoio só para homens e através do meu trabalho em mim mesmo. Foi aí que consegui perceber como estes eventos tiveram impacto na minha vida e como eu agora escolho o poder que eles têm sobre mim para o resto da minha vida.

Quando fui abusado aos 12 anos, varri o acontecimento para debaixo do tapete. Restava-me continuar a ser eu mesmo. Eu nem sequer sabia o que era abuso, quanto mais o que era transformar-me numa vítima dele. Depois do que aconteceu, fiquei extremamente transtornado, zangado e confuso. Como pessoas estamos constantemente a tentar racionalizar as coisas para as tentar compreender melhor, para tentar perceber por que é que nós fomos afectados por elas. É o chamado síndrome do “porquê eu?”.

Sou, e sempre fui, uma pessoa aberta, que fala a partir do seu coração. Por isso, as coisas nem sempre correram bem com os outros, apesar de as minhas intenções serem boas. Ainda assim, isto ajudou-me na minha luta e a ligar-me ao esqueleto da estrutura de suporte que existe para os homens vítimas de abuso.

Pela negativa, as pessoas à minha volta vêem-me como sentimental e por vezes instável. Até já fui descrito como sendo um pouco descontrolado. Se não tivermos ninguém com quem falar sobre estes assuntos sensíveis, as nossas emoções ficam amordaçadas e nós tornamo-nos voláteis, zangados e chateados com todos os que estão à nossa volta, bem como com nós próprios. Se nada disto tivesse acontecido, lá no fundo continuaria a ser a mesma pessoa.

Sou uma pessoa emotiva que fala e age com boas intenções. É fácil para as pessoas presumirem que o nosso comportamento é, de certa forma, um resultado directo do que aconteceu quando não gostam de algo particular em nós. Talvez não sejam capazes de lidar com a verdade ou com a crueza dos factos. Como homem afectado pelo abuso, é preciso uma capacidade enorme para digerir o que aconteceu e encará-lo de frente, em vez de tentar encontrar as respostas na bebida.

Foi muito bom conseguir interagir apenas com homens no grupo de apoio, dado que pretendia ser capaz de me identificar com outros homens. Tem sido extremamente difícil, e os meus relacionamentos e vida pessoal sofreram em consequência disso. Quando é que já chega? Eu estava mesmo pronto para escutar e ajudar-me a mim mesmo, e fazer o que fosse preciso. Ia fazer e pronto!

Tinha dúvidas que tinham se ser desbravadas e encontrei o apoio de que precisava e foi fantástico perceber que era capaz de falar abertamente e ser compreendido sem qualquer tipo de julgamento. Senti-me aliviado e cheio de alegria por ser capaz de pegar em mim e voltar a estar disponível para o mundo.

O meu conselho é: ouça-se a si mesmo, permita-se curar e falar a sério. Ser ouvido e compreendido tem tido um efeito muito terapêutico e calmante em mim. Fez desaparecer a pessoa constantemente ansiosa, chateada e zangada que eu era. Não estou completamente curado, mas todos os dias estou mais perto de alcançar a minha felicidade. Sei isso porque estou novamente a viver, estou grato, e sempre estive, por tudo o que sou, mas agora estou ainda mais.

Sinto-me feliz porque fiz e porque falei, porque isso era o correcto para mim. A decisão de procurar ajuda tem de ser sua. Mas no final vai ficar contente por tê-lo feito.

J – 27 anos

Eu sempre desvalorizei a minha história de abuso porque nunca achei que fosse algo muito traumático. E quando comecei ir aos grupos de apoio fui sempre muito céptico, especialmente porque eu não acreditava que o que me tinha acontecido era realmente abuso.

Quando comecei a ouvir as histórias dos outros homens e ouvi casos de violação eu quis ir embora porque eu não tinha sido violado, eu tinha sido “apenas” abusado sexualmente pelo meu irmão e achava que não merecia estar naquela sala. Eu pensava que eu era intruso e que um dia iam perceber que eu não merecia estar ali junto dos outros homens.

Mas aos poucos fui vendo que apesar das diferentes histórias a forma como cada um sofria e as coisas que passávamos eram todas muito parecidas. As questões de vergonha e da culpa que todos sentíamos eram demasiado semelhantes para que o meu abuso não fosse um abuso real.

Foi através do grupo de apoio que comecei a compreender o que realmente me aconteceu e o impacto que isso teve na minha vida. Aos poucos a minha postura mudou muito, passei de “eu não mereço estar aqui porque o abuso não me afectou assim tanto” para reconhecer que o que o meu irmão me fez foi errado e ultrapassar a vergonha e a culpa que sentia, mas que nunca quis mostrar aos outros que sentia.

S – 31 anos

Fui abusado pelo meu pai quando tinha entre 4 e 6 anos de idade. Depois de tentar suicidar-me 24 anos depois, decidi que precisava de procurar a ajuda que desde sempre senti que não merecia.

Houve muita manipulação e sedução inteligente com o meu abuso. Era apenas um jogo. Por isso senti que não merecia ajuda. Ser capaz de falar com homens que passaram por situações semelhantes ajudou-me a perceber que a forma como os nossos abusadores agiram muda de pessoa para pessoa , mas que os resultados são sempre os mesmos: um sentimento de vergonha e culpa.

O apoio que recebi, e espero dei de volta, ajudou-me a crescer. Deu início à viagem da recuperação. O grupo de apoio masculino deu-me fundações fortes para continuar com a minha vida de cabeça erguida.

J – 38 anos

Sou um desconhecido para vocês. Não me conhecem o rosto. Podem ou não ter passado pelo que passei. Mas estão a ler isto, pelo que julgo que vos aconteceu algo — algo com o qual se estão a debater.

Há uma expressão que diz “reconhecer o problema é meio caminho andado para o resolver”, mas isto não se aplica a nós, nem àquilo por que passámos. Não basta divulgar as nossas verdades e contar as nossas histórias. Isto é o princípio da vossa viagem, a viagem até vós próprios. É uma viagem de cura e aceitação, uma que exigirá muita força.

Quando contei a alguém, pela primeira vez, o que me aconteceu, tinham passado 18 anos depois de o meu irmão me ter violado pela última vez; mas a cura começara três anos antes. Eu não entendia, não sabia, tinha negado a verdade a mim mesmo. Mas os acontecimentos voltaram para me assombrar e não podia ignorá-los mais. Tinha de lidar com eles. Tinha de enfrentar o que me aconteceu. Tinha de o admitir a mim próprio em primeiro lugar, mas as palavras não vinham e os sentimentos não se manifestavam. Estava entorpecido.

Depois de pedir ajuda, depois de participar nos grupos de apoio e de fazer psicoterapia, percebi que não estava sozinho. Você não está sozinho. Você está prestes a embarcar numa corajosa viagem de altos e baixos, mas tal como eu consegui, você também conseguirá chegar a bom porto. Conseguiu chegar até aqui. E como um amigo me disse uma vez, “és mais forte do que pensas.” Você também é.

M – 35 anos

Nunca acreditei que fosse possível ficar bem. Não depois do que me aconteceu e de passar uma vida inteira e reviver o abuso porque as memórias e os pensamentos não paravam. Acordava a reviver o abuso e deitava-me à noite com as mesmas memórias. Não os conseguia desligar.

Quando fui para o grupo de apoio o alívio foi imediato. Senti um peso a sair de cima dos ombros. As histórias que ouvia eram tão diferentes da minha, mas ao mesmo eram iguais ao que passei. As coisas que ouvia, que os outros homens diziam e que eu não conseguia nunca dizer, pareciam ser arrancadas directamente do meu interior.

Muitas vezes pensei que um dia queria ser como aqueles homens que falavam abertamente da sua experiência, sem rodeios e directamente mas no fundo pensava que era só um desejo. Um desejo impossível de alcançar.
Até que um dia olhei para trás e sem que me apercebesse vi que eu era um desses homens.

B – 44 anos

O meu escape foram sempre as drogas e a bebida. Comecei a consumir drogas muito cedo, era a única forma de conseguir fugir da realidade. Eu não queria saber que tinha sido violado mais do que uma vez e queria arrancar isso da minha cabeça. Quando fumava eu sentia-me bem, sentia-me ausente e longe de tudo, nada me afectava, eu estava imune de tudo e então comecei a fumar mais vezes e a aumentar a dose.

Foi preciso chegar a um ponto de desespero para perceber que as drogas não me serviam mais e que não havia forma de fugir mais. Cheguei a ponto em que não tinha controlo da minha vida, eu não tinha acabado os estudos, estava desempregado e não tinha nenhuma relação que fosse boa. Bati no fundo da minha vida e pensei que não havia volta a dar sem ser acabar com tudo.

Felizmente antes de cometer alguma asneira, pedi ajuda e a minha vida começou a mudar. Enfrentei os meus medos de frente, tive de me obrigar a enfrentar a realidade e a verdade  do que me aconteceu. Não tinha culpa de ter sido violado, eu não era o culpado por isso. Houve uma altura da minha vida que era tudo negro e eu não via solução para os meus problemas. Mas hoje isso faz tudo parte de um passado e parece que foi tudo numa vida diferente em que eu via as drogas como solução. Hoje já não consumo mais e sei que os grupos de apoio foram essenciais para a minha recuperação.