Mitos sobre abuso sexual


Os mitos são preconceitos e ideias erradas

Os mitos sobre o abuso sexual são preconceitos e ideias erradas sobre as vítimas e os seus agressores, dificultando o sucesso do processo terapêutico.

Os mitos afectam as vítimas de abuso sexual

Muitas vezes, os homens vítimas de abuso sexual carregam consigo ideias erradas que dificultam o seu processo de cura. No entanto, estes mitos não são exclusivos das vítimas de abuso sexual: são ideias e preconceitos partilhados pela sociedade em geral e que afectam a percepção de como lidar com estas questões.

Existem vários mitos sobre o abuso sexual

Abaixo, apresentamos uma parte dos mitos sobre o abuso sexual.

Antes de continuar, queremos informá-lo de que esta lista de mitos pode conter informações desencadeadoras de sentimentos ou pensamentos intensos. Se se sentir desconfortável, volte quando se sentir preparado ou, se preferir, entre em contacto connosco para podermos ajudá-lo.

 

“Os homens e rapazes não podem ser vítimas de abuso sexual”

Qualquer homem pode ser vítima/sobrevivente de abuso sexual, independentemente da crença religiosa, etnia, cultura, origem ou orientação sexual.

Na realidade, 1 em cada 6 homens é vítima de experiências sexuais abusivas antes dos 18 anos de idade.

Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna de 2015, 20,7% das vítimas menores de idade eram rapazes.

No entanto, acreditamos que estes números não representam a realidade, uma vez que apenas 16% dos homens considera que foi vítima/sobrevivente de abuso sexual e nem todos os casos são reportados ou denunciados.

Se pretender mais informações sobre a realidade do abuso sexual masculino contacte-nos para o e-mail info@quebrarosilencio.pt.

“Os autores de abuso de sexual são indivíduos desconhecidos das vítimas”

A ideia de que os crimes de abuso sexual são praticados por desconhecidos é errada. Muitos dos abusos sexuais são da autoria de familiares ou de amigos da família.

Segundo o inquérito Focus on Survivors, 70% das vítimas de abuso sexual referiu que o abuso foi praticado por um familiar ou por alguém próximo da família. Há também dados que levam a acreditar que mais de 90% das crianças vítimas de abuso sexual conhecia o autor.

“Se um rapaz for abusado por um homem, significa que é homossexual”

Este é outro mito que, além de errado, desvia a atenção do que é mais importante numa situação traumática de abuso sexual: o processo de cura.

Se um rapaz for abusado por um homem, significa que o rapaz passou por uma experiência traumática de abuso sexual. O foco deverá ser o bem-estar do rapaz e o seu processo de cura, não a orientação sexual.

O foco na orientação sexual do abusador ou da vítima prejudica o processo de cura, bem como alimenta a confusão e o mal-estar sentidos pela vítima/sobrevivente de abuso sexual.

“Mulheres e raparigas não podem abusar sexualmente de um homem ou de um rapaz”

Raparigas e mulheres podem ser autoras de crimes de abuso sexual. Mesmo que as estatísticas indiquem que a maioria dos autores sejam homens, há casos onde o autor do crime de abuso sexual é uma mulher.

O facto de uma mulher ser a autora do abuso sexual não pressupõe que a experiência seja menos traumática para o homem ou para o rapaz, nem faz com que os homens e rapazes sejam considerados “sortudos”.

Acreditar que é impossível para uma mulher poder abusar sexualmente de um homem é alimentar uma ideia errada que complica a possibilidade dos homens e rapazes reconhecerem que passaram por uma situação de abuso. Este mito contribui ainda para que os próprios homens não reconheçam o abuso como crime, que seus casos sejam mal diagnosticados ou que passem despercebidos.

“Se um rapaz ou um homem tiver prazer ou uma erecção durante o abuso, significa que permitiu o abuso”

Ter uma erecção ou ter ejaculado durante o abuso é uma questão central nos homens e rapazes que foram abusados sexualmente ao representar, para muitos, fonte de sentimentos de culpa e de vergonha intensa. É por isso fundamental compreender que ter tido erecção ou ejaculação durante o abuso não significa que o rapaz ou homem tenha procurado ser sexualmente abusado.

É essencial compreender que muitos homens podem responder à estimulação sexual com uma erecção ou mesmo atingir o orgasmo. A erecção é uma das formas que o corpo tem de reagir aos estímulos, enquanto que a secreção de sémen pode ocorrer devido à pressão e estimulação da próstata.

Muitos sobreviventes homens são afectados porque isto lhes aconteceu durante o abuso. São experiências traumáticas que se tornam obstáculos para a gestão e interpretação correcta do abuso.

Um rapaz ou homem seja vítima/sobreviventes de abuso sexual não deixa de o ser porque teve uma erecção ou ejaculou durante o abuso.

“Os rapazes que foram sexualmente abusados também se tornam abusadores”

Este é um dos medos que assombra muitos homens vítimas/sobreviventes de abuso sexual, referido por vezes como “síndrome do vampiro”. No entanto, a ideia de que um rapaz vítima de abuso sexual irá reproduzir comportamentos de abuso é errada.

Na realidade, existem abusadores (cerca de 30%) que também foram vítimas de abuso no passado mas não representam a maioria.

Além de errado, acreditar neste mito pode contribuir para que um rapaz ou homem não procure apoio ou partilhe com alguém o que lhe aconteceu, devido ao medo de ser julgado como um criminoso ou como alguém que poderá abusar sexualmente de uma criança ou adulto.

“Se um rapaz gostou da atenção recebida ou até desejou o contacto sexual, significa que permitiu o abuso e é por isso culpado”

Qualquer comportamento ou contacto sexual praticado por um adulto a uma criança é crime de abuso sexual. Mesmo que um rapaz menor se exponha a um adulto e peça contacto sexual, o adulto é o responsável pelo controlo dessa situação e o único culpável. Nenhuma criança ou rapaz procura ou pede para que seja explorado ou abusado sexualmente.

Muitas vezes, os autores de abuso sexual usam a própria curiosidade e interesse dos rapazes e crianças, afirmando que essa curiosidade ou interesse sexual demonstra que os rapazes e crianças queriam e desejavam o contacto sexual e, por isso, que estavam a consentir o acto.

Há também situações em que os autores de abuso sexual controlam e manipulam de tal modo a situação de abuso, especialmente nos casos de abuso continuado, que há rapazes que começam a sentir que querem não só a atenção desses adultos como desejam o contacto sexual.

Em qualquer dos casos, é sempre o adulto o único responsável pelo abuso sexual, pela manipulação do rapaz, pela traição da sua confiança e por explorar as suas necessidades e carências afectivas para seu prazer sexual.

“Se uma mulher ou rapariga abusar de um rapaz ele é «sortudo» e não é abuso”

Abuso sexual é abuso. Ser praticado por uma mulher ou rapariga não muda a realidade nem o trauma consequente do abuso sexual.

Em alguns casos, quando uma mulher comete abuso sexual, o caso deixa de ser visto como abuso, havendo situações onde o próprio abuso é desvalorizado e passa a ser referido como uma relação de uma mulher mais velha com um rapaz, ignorando a verdade do abuso sexual.

Acreditar que um rapaz ou homem é “sortudo”, porque uma mulher ou rapariga abusou sexualmente dele, é desacreditar e desvitalizar a experiência traumática que sofreu. Isto deve-se em parte à forma como a sociedade vê a masculinidade e as expectativas sociais do homem. No entanto, o abuso sexual é uma experiência traumática, independentemente do género de quem o comete.

“Se um homem ou rapaz for abusado significa que não é masculino ou viril”

A masculinidade ou virilidade de um homem ou rapaz não está relacionada com o facto de ter sido abusado sexualmente. A ideia de que um homem ou rapaz vítima/sobrevivente de abuso sexual é menos masculino ou menos capaz do que os outros homens está errada.

Este é um mito também relacionado com a forma como a sociedade reconhece os atributos associados à masculinidade. E, muitas vezes, esta ideia errada passa a ser carregada pelas vítimas de abuso sexual, afectando a sua auto-estima e interferindo ainda com a possibilidade de pedirem apoio.

“Todos os abusadores de homens e rapazes são homossexuais”

A orientação sexual do autor do abuso sexual não é vinculativa ou determinante no abuso. Também não há indícios de que um homem homossexual é mais propício a cometer um acto de abuso sexual do que um homem heterossexual.

Há estudos que sugerem que os homens que abusam sexualmente de rapazes identificam-se, na maioria, como heterossexuais. E há indicadores de que, na altura que cometeram o abuso, os autores do abuso sexual estavam numa relação adulta heterossexual.

“Violação e abuso sexual de homens só acontece em prisões ou entre homossexuais”

Casos de abuso sexual podem acontecer em qualquer lugar, sendo que muitos acontece dentro da própria família. Também não há indícios de que os autores de abuso sexual sejam predominantemente homossexuais.

Os casos de abuso sexual e violação acontecem independentemente da crença religiosa, etnia, cultura, origem ou orientação sexual.

“Um homem ou rapaz não pode ser abusado por um agressor heterossexual”

Há estudos que sugerem que os homens que abusam sexualmente de rapazes identificam-se, na maioria, como heterossexuais, do mesmo modo que há indicações de que, na altura em que cometem o abuso, os autores do abuso sexual estavam numa relação adulta heterossexual.

A orientação sexual do autor do abuso sexual não é vinculativa ou determinante no abuso, como não há indícios que um homem homossexual é mais propício a cometer um acto de abuso sexual do que um homem heterossexual.

“Se a vítima não tentar parar fisicamente o acto, não podemos considerar que se tratou de um abuso sexual”

O abuso sexual é crime e a responsabilidade é do autor do crime.

O facto de a vítima não conseguir impedir ou não tentar impedir fisicamente o abuso não o torna num acto consentido e é considerado abuso sexual.

Abuso sexual de homens

O crime de abuso sexual de homens é todo e qualquer contacto sexual que não seja desejado ou consentido pelo homem, sendo praticado contra à sua vontade.

O abuso sexual:

  • acontece independentemente da crença religiosa, etnia, cultura, origem ou orientação sexual, do agressor ou da vítima
  • é sempre da responsabilidade do agressor.

Saiba mais sobre o abuso sexual de homens.

Abuso sexual de crianças

Qualquer comportamento ou contacto sexual praticado por um adulto a uma criança é crime de abuso sexual, independentemente do nível de violência da situação ou da criança ter consciência do que está a acontecer.

O agressor também pode ser uma criança mais velha (exemplo: irmão, primo ou amigo) ou fisicamente mais forte do que a vítima, cuja acção resulta igualmente em consequências traumáticas para a criança agredida.

Mesmo num caso onde a criança se exponha ao adulto e peça contacto sexual, o adulto é o responsável pelo controlo dessa situação e o único culpável se houver qualquer tipo de contacto sexual.

Em qualquer dos casos, podemos dizer que abuso sexual está relacionado com o abuso de confiança e de poder, de um adulto ou de uma criança mais velha, sobre a vítima.

O abuso sexual pode acontecer através de uma experiência pontual ou continuada por um período de tempo indeterminado, resultando num conjunto de traumas que afectarão a criança por longos períodos de tempo (anos ou décadas).

Saiba mais sobre abuso sexual de crianças.