Compreender o silêncio


Há cerca de um mês referimos alguns motivos por que um homem pode guardar para si experiências de abuso sexual, levando-o a sofrer em silêncio. Hoje voltamos a este tópico por ser um assunto central ao abuso sexual masculino e por haver muito por dizer.

Masculinidade

Para lá da complexidade que é viver anos com sentimentos de vergonha, culpa e da própria expectativa do que é ser homem,  é fundamental compreender que, quando um homem se sente menos homem, como se pode esperar que esse mesmo homem consiga falar do abuso sexual?

Experiências de abuso sexual podem destruir a forma como um homem vê a sua própria masculinidade e viver com isso não é fácil, especialmente quando se vive numa sociedade onde ser o “macho dominante” faz parte do papel social e expectativa do que é ser homem. Ao compreender estas razões será mais fácil compreender o porquê de tantos homens demorarem anos e mesmo décadas até conseguirem falar das suas experiências traumáticas.

Qualidades que se tornam obstáculos

Num estudo chegou-se à conclusão de que certos atributos associados à masculinidade podem ser nocivos para os homens. Muitos homens acreditam que atributos como a auto-confiança e auto-suficiência são qualidades biológicas e fundamentais para o sucesso evolucionário da espécie humana. No entanto, o exagero de auto-confiança pode tornar-se num obstáculo para um homem pedir ajuda numa altura difícil ou de crise. Este atributo torna-se ainda mais grave, quando os comportamentos opostos a essa ideia, significa castração da virilidade. Nessas situações, sofrer em silêncio surge como a única opção aceitável.

Os homens partem do princípio que vão ser vistos com desdém ao desviarem-se destes padrões comportamentais, mesmo que isso não seja necessariamente verdade, evidenciando que há uma distância entre o que os homens entendem que os outros homens acreditam ou fazem e aquilo que os homens realmente acreditam e fazem. A percepção de que um homem que fuja a essas normas é visto como menos viril ou masculino. Joel Y. Wong, um dos autores deste estudo afirma: “a ironia é que muitos desses homens pensam dessa forma e por isso têm receio de fugir delas e acabam por perpetuá-las também”